domingo, 29 de junho de 2014

O conflito de papeis da incrível geração atual

O conflito de papeis da incrível geração atual

Fico um tanto atônito com o conflito de papeis entre homens e mulheres desta geração que hoje está entre 25 e 45 anos. Muita informação, pouca reflexão, muitos princípios em jogo. O feminismo, o pós feminismo, uma era de homens bananas e infantilizados e mulheres masculinizadas, poderosas (e insatisfeitas). Uma confusão. Elas tudo querem: liberdade, igualdade, maternidade, profissionalidade, dinheiro, independência, poder.  Conseguiram. Eles, aparentemente, nada querem, nem o que já tinham: querem jogar video game até os 35 e conviver, se possível em paz, com as confusas meninas e suas expectativas entre empunhar a espada de uma causa e encontrar seu devido e merecido lugar "neste mundo masculino". E, claro, encontrar o carinhoso príncipe encantado pós feminista. Ainda não se sabe quem é um e quem é outro, que tipo de família se formará. Ou se será apenas uma "parceria" moderninha.

A amiga Adilia Belotti difundiu no Facebook um belo texto da blogueira Ruth Manus, sobre o assunto. Em seguida, achei a resposta do também blogueiro Guilherme Archas. Ambos os textos são escritos com arte, inteligentes, espirituosos e francos. E mostram como os homens e mulheres desta geração estão de costas um para o outro. Os textos estão reproduzidos abaixo para quem se interessar pelo assunto, com as referências devidas.

Essa geração está bem ferrada.



RUTH MANUS
Retratos e relatos do cotidiano de uma jovem como tantas outras

Às vezes me flagro imaginando um homem hipotético que descreva assim a mulher dos seus sonhos:
“Ela tem que trabalhar e estudar muito, ter uma caixa de e-mails sempre lotada. Os pés devem ter calos e bolhas porque ela anda muito com sapatos de salto, pra lá e pra cá.
Ela deve ser independente e fazer o que ela bem entende com o próprio salário: comprar uma bolsa cara, doar para um projeto social, fazer uma viagem sozinha pelo leste europeu. Precisa dirigir bem e entender de imposto de renda.
Cozinhar? Não precisa! Tem um certo charme em errar até no arroz. Não precisa ser sarada, porque não dá tempo de fazer tudo o que ela faz e malhar.
Mas acima de tudo: ela tem que ser segura de si e não querer depender de mim, nem de ninguém.”
Pois é. Ainda não ouvi esse discurso de nenhum homem. Nem mesmo parte dele. Vai ver que é por isso que estou solteira aqui, na luta.
O fato é que eu venho pensando nisso. Na incrível dissonância entre a criação que nós, meninas e jovens mulheres, recebemos e a expectativa da maioria dos meninos, jovens homens,  homens e velhos homens.
O que nossos pais esperam de nós? O que nós esperamos de nós? E o que eles esperam de nós?
Somos a geração que foi criada para ganhar o mundo. Incentivadas a estudar, trabalhar, viajar e, acima de tudo, construir a nossa independência. Os poucos bolos que fiz na vida nunca fizeram os olhos da minha mãe brilhar como as provas com notas 10. Os dias em que me arrumei de forma impecável para sair nunca estamparam no rosto do meu pai um sorriso orgulhoso como o que ele deu quando entrei no mestrado. Quando resolvi fazer um breve curso de noções de gastronomia meus pais acharam bacana. Mas quando resolvi fazer um breve curso de língua e civilização francesa na Sorbonne eles inflaram o peito como pombos.
Não tivemos aula de corte e costura. Não aprendemos a rechear um lagarto. Não nos chamaram pra trocar fralda de um priminho. Não nos explicaram a diferença entre alvejante e água sanitária. Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração.
Mas nos ensinaram esportes. Nos fizeram aprender inglês. Aprender a dirigir. Aprender a construir um bom currículo. A trabalhar sem medo e a investir nosso dinheiro.  Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração.
Mas, escuta, alguém  lembrou de avisar os tais meninos que nós seríamos assim? Que nós disputaríamos as vagas de emprego com eles? Que nós iríamos querer jantar fora, ao invés de preparar o jantar? Que nós iríamos gostar de cerveja, whisky, futebol e UFC? Que a gente não ia ter saco pra ficar dando muita satisfação? Que nós seríamos criadas para encontrar a felicidade na liberdade e o pavor na submissão?
Aí, a gente, com nossa camisa social que amassou no fim do dia, nossa bolsa pesada, celular apitando os 26 novos e-mails, amigas nos esperando para jantar, carro sem lavar, 4 reuniões marcadas para amanhã, se pergunta “que raio de cara vai me querer?”.
“Talvez se eu fosse mais delicada… Não falasse palavrão. Não tivesse subordinados. Não dirigisse sozinha à noite sem medo. Talvez se eu aparentasse fragilidade. Talvez se dissesse que não me importo em lavar cuecas. Talvez…”
Mas não. Essas não somos nós. Nós queremos um companheiro, lado a lado, de igual pra igual. Muitas de nós sonham com filhos. Mas não só com eles. Nós queremos fazer um risoto. Mas vamos querer morrer se ganharmos um liquidificador de aniversário. Nós queremos contar como foi nosso dia. Mas não vamos admitir que alguém questione nossa rotina.
O fato é: quem foi educado para nos querer? Quem é seguro o bastante para amar uma mulher que voa? Quem está disposto a nos fazer querer pousar ao seu lado no fim do dia? Quem entende que deitar no seu peito é nossa forma de pedir colo? E que às vezes nós vamos precisar do seu colo e às vezes só vamos querer companhia pra um vinho? Que somos a geração da parceria e não da dependência?
E não estou aqui, num discurso inflamado, culpando os homens. Não. A culpa não é exatamente deles. É da sociedade como um todo. Da criação equivocada. Da imagem que ainda é vendida da mulher. Dos pais que criam filhas para o mundo, mas querem noras que vivam em função da família.
No fim das contas a gente não é nada do que o inconsciente coletivo espera de uma mulher. E o melhor: nem queremos ser. Que fique claro, nós não vamos andar para trás. Então vai ser essa mentalidade que vai ter que andar para frente. Nós já nos abrimos pra ganhar o mundo. Agora é o mundo tem que se virar pra ganhar a gente de volta.

A resposta de Guilherme Archas

A incrível geração de homens que NÃO aparenta ser incrível (Carta à Ruth Manus)
Este texto é uma resposta à Ruth Manus, autora do artigo “A incrível geração de mulheres que foi criada para ser tudo o que um homem NÃO quer“.
Um homem cresce pensando em ser jogador de futebol, astronauta, bombeiro. Não nascemos pensando em casar. Só que chega uma certa idade em que percebemos que uma companhia feminina pode ser a cereja do bolo que nos falta. E, de forma natural, começamos a procurar uma parceira pro resto da vida, aquela que poderá dar um pouco mais de significado à palavra “família”.
Engana-se, porém, quem acha que é fácil encontrar alguém que te complete. No meio de tanta gente interesseira, prostituição a um clique de distância, corpos torneados de academia e cérebros vazios, fica difícil distinguir quem não quer te consumir como um simples maço de cigarro. Acende um, deixar virar cinza, joga fora, pega o próximo. Há muita gente que pensa que gente é descartável. Muitos homens ainda escolhem sua companheira pela ausência de celulite na bunda e não pela presença de espírito. Muitas mulheres ainda escolhem seus homens pela capacidade de seus bolsos. Vai ver é por isso que estou solteiro.
Mas felizmente, há alguns de nós que sabem que a beleza é temporária e procura numa mulher muito mais que um par de seios firmes. Não posso afirmar que sejamos maioria, mas há muitos que têm admiração (e tesão) por mulheres modernas, batalhadoras, seguras de si e cheias de opinião, o que não é desculpa para não se preocupar com sua feminilidade, não querer perder os quilinhos a mais (mesmo que fique só no plano teórico), não fazer mãos, pés e se depilar de vez em quando.
Às vezes me flagro imaginando uma mulher hipotética que descreva assim o homem dos seus sonhos:
“Gostaria que ele fosse bem-sucedido na carreira, mas se estiver desempregado também não tem problema. Melhor alguém que sonhe em construir sua estabilidade financeira a dois que o luxo e conforto de um bem-nascido. Pouco importa de onde ele vem e o que ele já conquistou, ele só precisa de ambição, força de vontade e brilho nos olhos.
Quero que ele se interesse por outros países, outras culturas e outras línguas. Não precisa ser poliglota, nem ter viajado muito, mas deve estar aberto a desbravar os quatro cantos do mundo na minha companhia. Ainda não conheço toda a Europa, nem nada da Ásia. Cuidar dos filhos, ajudar nas tarefas de casa e não depender da mãe pra nenhuma das tarefas anteriores também é essencial.
Ele deve frequentar academia e ler muitos livros pra manter o mente e corpo saudável. Se tiver problemas de ereção por conta do stress, não tem problema. Também não precisa ter tanquinho, porque não dá pra fazer dieta em casa todo dia e nunca me levar pra jantar fora.
Acima de tudo ele deve cultivar suas amizades: afinal, o que será de um homem sem amigos, sem futebol e sem cerveja?”
Pois é. Você conhece alguma mulher com esse discurso? Eu não.
É muito louco e contraditório tudo isso. Sofremos um misto de cobrança e necessidade de provação constante. É muita pressão por resultado envolvida. Família, trabalho, dinheiro, filhos, corpo, mente, tanquinho, sexo. Carregamos conosco a necessidade de nos tornarmos esse príncipe encantado que as mulheres imaginam que exista, só que este homem ideal está mais para super-homem que para um mero mortal.
O sucesso dessa nova incrível geração de mulheres é também seu próprio calvário. Enquanto elas alcançam mais e mais conquistas profissionais e pessoais, os homens vão ficando para trás e perdendo valor para elas. Elas não se contentam mais com pouco. Com homens mesquinhos, machistas, que pensam pequeno ou que não sejam alguém de respeito na vida. E estão certas.
A mulher moderna é mais seletiva. Com toda essa (r)evolução, não é qualquer “zé mané” que pode conquistá-la e por inúmeras vezes, ela vai dar com a cara na parede saindo com um idiota atrás do outro. Um não é inteligente o suficiente, o outro não é tão antenado quanto ela – que lê notícias diariamente, o terceiro não sabe inglês e nunca saiu do Brasil. O problema é que enquanto o referencial dela for a geração de sua mãe e tias que se casaram cedo e viraram ótimas esposas-donas-de-casa, ela se frustrará.
O fato é: o quanto você está disposta a abdicar da sua vida corrida para entrar de cabeça num relacionamento a dois? Quem é seu homem ideal? Você é firme o bastante para amar um homem que falha? Qual mulher foi criada para aceitar um homem com suas fragilidades?
Ruth, não desista de procurar seu par porque como você há muitos de nós, cheios de dúvidas.
A gente não é nada do que o inconsciente feminino espera do homem perfeito. E o pior: nos esforçamos pra ser. Que fique claro, alguns de nós estão dispostos a tudo pra agradar vocês. No fim do dia, o que queremos é uma parceira que nos apoie a buscar nossos objetivos, mas entenda nossos fracassos.


Coração de Pai (de José Ruy Gandra)

Num tempo em que só se fala do pós-feminismo, da relação de igualdade entre gêneros, do anti-machismo, do poder das mulheres, da vigilância ao linguajar potencialmente discriminatório entre outras chatices politicamente corretas que vão se nos impondo, a leitura de "Coração de Pai", de José Ruy Gandra é um bálsamo para a paternidade. Um relato de arrepiar o profundo drama da alma de um pai preocupado com o destino de seus filhos.
Zé Ruy é amigo de muitos anos reencontrado há pouco e redescoberto nesta obra corajosa, aberta e de uma sensibilidade ímpar. Aqui ele fala da paternidade de forma escancarada e sem proselitismo, com ênfase nas pequenas coisas, na descoberta do seu particular "Deus das pequenas coisas", que de fato é o que interessa na vida. Suas histórias, reflexões e preocupações com a educação de seus filhos transparece nessa obra em que ele nos conta em preciosas gotas que descrevem o que todos nós, pais, sentimos com relação aos nossos filhos. Preocupações de pais de uma geração em que o feminismo transformou o papel masculino num problema de menor ou nenhuma importância.
Após passar pela pior tragédia que um pai pode passar, aquela contra a ordem e a natureza das coisas, que é a perda de um filho, o jornalista, historiador (e agora filósofo) Zé Ruy ainda tem a coragem de expor sua "dor sem remédio", seu coração sangrando na procura de sentido para a vida. A procura por que passam todos os pais.
Zé Ruy tem estilo, cultura e uma prosa deliciosa em que vai destilando em sínteses inteligentes esse fenômeno tão pouco comentado em nossos dias: a paternidade. E resgata a real dimensão e a nobreza do papel de pai.

domingo, 15 de junho de 2014

O Réu e o Rei, de Paulo Cesar de Araújo

O Réu e o Rei, de Paulo Cesar de Araújo

Nos últimos anos tenho sido leitor voraz de biografias. Talvez para entender minha própria, sei lá. Encontrei, no gênero, uma fonte de prazer e informação bastante proveitosa. E as biografias têm sido escritas cada vez com mais arte, gênio e cuidado. Rui Castro, Fernando Moraes, Lira Neto, são mestres do ofício que nos encantam com seus textos. Além de pesquisadores minuciosos, produzem obras magníficas. São portanto dois os prazeres básicos das biografias: o do conteúdo e o da forma como foram escritas. Confesso que a forma muitas vezes me atrai mais do que o personagem biografado. Alguém já leu a biografia do Paulo Coelho? Nada mais insosso. A cara dele, dos textos dele, dos profundamente medíocres "pensamentos" do igualmente medíocre, porém famoso, personagem. Só teve graça mesmo o texto do Fernando Moraes. E olhe lá.

Eu já tinha lido o livro "Roberto Carlos em Detalhes", de Paulo Cesar de Araújo, que veio a ser objeto de mais de um processo judicial movido pelo Rei contra o seu maior fã. Sim, pois não há outro fã de Roberto mais aficionado do que Paulo Cesar de Araújo. Tive curiosidade em conhecer a história do cantor do qual também me tornei fã, superando meu preconceito contra ele, tardiamente. Um livro bem escrito. Quase chapa branca. Um livro em que claramente o biógrafo se mostra um fervoroso e apaixonado admirador do biografado.

Tive curiosidade em conhecer a vida de Roberto Carlos para entender como é a vida de um cara que é prisioneiro da própria fama, um presidiário do sucesso. Tenho muita compaixão por essas celebridades longevas que se tornam verdadeiros sacerdotes da fama e que pagam por isso um preço caro: perdem a liberdade de ir e vir, de fazer o que querem, de errar e, sobretudo, o da privacidade. É uma escolha que fazem e certamente sofrem as consequências disso.

Fiquei estarrecido com a notícia do processo movido contra o autor por Roberto Carlos. À época, e sendo do ramo, pensei comigo: "está aí um caso em que advogaria pro bono para o Paulo Cesar". Só pela causa da liberdade de expressão, tema que me é caríssimo. Pois bem. Após o desastroso acordo feito, a obra foi recolhida e incinerada. Mas passou a circular anonimamente pela internet, em forma virtual, o que tornou sem efeito todo o esforço do Rei para tirar de circulação sua história.

Como o recém lançado "O Réu e o Rei", Paulo Cesar de Araújo conta a história do processo, a própria e aproveita para recontar, de outra forma, a história de Roberto Carlos. Bela sacada. Muito bem escrito, elegantemente elaborado, deixa o Rei no seu adequado e corretíssimo lugar neste capítulo de sua história: o de ridículo.


sábado, 14 de junho de 2014

Tempestades

Tempestades

Tempestades são assim, varrem tudo o que encontram pela frente. Dentro de nós, lavam nossa alma e, com ela, nossas certezas, nossos pontos de apoio, nossas ancoragens. Nossa bússola vira pomba gira, nosso contador perde a conta.

Ninguém sabe ao certo o que se passa dentro de nós. Nem nós mesmos. Ninguém sabe ao certo o que sentimos, onde sentimos, como sentimos e quanto sentimos. Ninguém sabe o que vemos, cremos e temos por dentro, o que guardamos de cada tempo, de cada toque, de cada gesto, de cada palavra, olhar, movimento. Ninguém sabe das tempestades que abrigamos dentro dos nossos corações, das nossas emoções, nossas comoções e nossas visões. São tempestades que destroem, lavam, varrem, movem, tremem, deslocam pedaços enormes de antigos nós.

Ninguém sabe ao certo do vulcão que explode esse magma que ao sair, sai estourando, borbulhando, aos vômitos, aos soluços, aos berros, aos prantos, às gargalhadas, às porradas.

Quanto sofrimento para atravessar esse tempo de tempestade, de lava, de cinza, de lama. Tempo cinzento, frio, viscoso e chuviscoso; tempo de raios, ventos e trovões que tudo mexe e remexe. Um tempo de perda, de esvaimento, de desperdício, de alegria que parte, de angústia que chega; até chegar a um estado triste e melancólico de calmaria sem rumo.

Tempo ruim. E não há outro jeito, não há outra forma nem opção. Sem tempestade não há bonança. Sem rompimento não há refazimento. Que forças  da natureza são estas que demoram tanto para acalmar, para amainar, para dar enfim lugar ao renascer, reconstruir, alvorecer, florescer.


O que se escreve não se diz

O que se escreve não se diz

Então é assim. Não se diz o que se escreve. Vive-se este aparente paradoxo. Escrevemos para dizer, mas não dizemos o que escrevemos. E vice versa. Há coisas que dizemos que não escrevemos; por não termos certeza, por não termos pensado, por que sai de qualquer jeito ou para não deixar registro. Seja lá qual for a razão.

Comigo assim se passa: escrevo o que não digo. Digo na escrita o que não consigo dizer de outra forma. Porque de outra forma digo mal, digo pior, digo torto, digo errado. Invejo o artista plástico (e mais ainda o músico), que dizem de outra forma, dizem noutra língua. Eu digo e corrijo, refaço, rescrevo, redigo, até parecer que está perto da penúltima versão do que quero dizer. E continuo insatisfeito por não tê-lo dito melhor. Quero voltar a todo momento e redizer. É mais do que solitário o ato de escrever, é inseguro, egoísta, muitas vezes paranoico e isolado do mundo externo. Escrever evita a expressão daquele que te ouve, te olha ou te contempla, do efeito que causa no outro. Escreve-se para si mesmo, enfim. Mas com a paradoxal esperança de ser ouvido, entendido, compreendido. E, porque não, visto. 

Não importa muito como o outro leu, interpretou, compreendeu. Cada um entende como pode a sua leitura, conforme o seu próprio contexto, sua cultura, sua história de vida, suas sinapses, suas carências, "nóias" e "neuras". É difícil explicar ao outro esse universo interno que se expressa na forma escrita, esse processo de aperto, de espremer a fruta até o caroço, da busca interior de um relato, uma história, uma estória ou uma rima que, se não sai da cabeça, se dissipa, se dissolve, desaparece, vira nada. Então se escreve e se conta o caso. Dá-se espaço a esta necessidade de expressar visões, sentimentos e emoções que nos tomam por dentro e que não querem mais ficar ali, precisam de espaço, pedem passagem. E aí procuram vida no texto, no dito, no não dito, no maldito, no mau dito (ou porcamente) dito. O que mais importa se é isso mesmo, expressar, simplesmente expressar. Dizer.

Até que uma hora uma figura se projeta, um desenho aparece, uma forma toma corpo e uma história se relate. Se ela tocar em alguma corda interna, muito que bem. Se ela tocar numa corda do outro, melhor ainda. Se não, fica ali mesmo, sozinha, em seu canto, seu recanto, sua caixinha fechada.

A coragem de romper

A coragem de romper

Para romper é preciso coragem. Seja lá com o que for que se rompa, seja lá com quem for que se rompa. Tenho a maior admiração por aqueles que rompem; com situações que já não mais persistem, que já não mais subsistem, muitas vezes nem mais existem. Estas pessoas são corajosas, admiráveis, ultrapassam um obstáculo interno muitas vezes mais importante que todos os externos juntos. Mais brava ainda é essa pessoa que rompe com o cômodo, com o tonto, com o hipócrita, com a zona do confortável. Para romper é preciso que o espinho tenha infectado, que o furúnculo esteja maduro, que a bexiga esteja tão cheia a ponto de estourar.

Há os que rompem por falta de amor. Outros, por excesso. Há os que rompem por se terem perdido de si mesmos, outros, por se terem achado. Há os que rompem por explosão, outros por decisão. Há de um tudo. Há de um todo. Nesse mundo velho sem porteira, romper é parte da vida. É rompendo a placenta que o bebê nasce, é rompendo com a infância que o adolescente aparece, é rompendo com a juventude que surge o adulto e deste, o maduro.

É rompendo com o que morre dentro de si que se renasce. Romper, assim, é reaparecer. É reconstruir, refazer, recompor, redispor, rediscutir, repropor.

Admiro quem rompe. E só posso torcer para quem teve a coragem de romper: que reencontre, reerga, reconstrua, refaça, reveja, renasça, reviva.









domingo, 8 de junho de 2014

A saudade e o silêncio

Sempre achei que a saudade fosse apenas um grande vazio. 
Não é. A saudade é uma sufocante presença. 
A presença imensa da ausência. 
Traz com ela um silêncio que ensurdece e entristece. 
De luz que se esvai, de um tempo que anoitece..
Um silêncio crepuscular que lhe toma o lugar.
Lugar onde tece o que assim acontece.

Muito bem. 

Aí encontro esse pedaço de Drummond. 
E me calo, claro.

Ausência
     Drummond
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.