Em algum momento entre 2009 e 2010
Entrei naquele escritório instalado num palacete do Jardim Europa, sem saber se o reconheceria, fisicamente. Muito menos se reencontraria seu espírito, sua alma. Desde nossa curta
conversa ao telefone, na semana anterior, passava e repassava em minha cabeça o
que poderia ter-nos separado. Certa vez, minha mulher encontrou-o casualmente
no Shopping, na hora do almoço. Trocaram notícias das famílias; ele
deu-lhe um cartão e o telefone de casa, para falar com a Lu. Telefonaram-se,
almoçaram juntas, atualizaram as fofocas, as biografias respectivas, das famílias, dos
filhos. Ele ligou,
brincalhão como sempre, marcando um almoço para a segunda-feira seguinte.
Chegada a segunda, resolvi, ao invés de encontrá-lo no restaurante, como
combinado, ir buscá-lo no escritório. Ao deixar meu carro no pátio de estacionamento,
fui caminhando até a entrada da casa e percebi que, talvez por defesa, não
estava com grandes expectativas para aquele encontro. Muito ao contrário.
Calejei-me um pouco na vida após alguns reencontros com velhos amigos que, fora
boas lembranças de infância, adolescência ou juventude, não tinham mais nada em
comum comigo. Perdia-se o grude, não se reconhecia o olhar. Pessoas que não
familiarizávamos mais, reencontros só de corpo presente, caricatura do que já foi.
Além disso, eu tinha uma mágoa muito grande com o assunto. Mágoa, não sei se é
o termo, talvez seja. Afinal, como é que a gente define a tristeza de perder o grande amigo, o
confidente, aquele com quem você divide o sucesso e o fracasso, que não se constrange
em dividir as vergonhas, a história pessoal? Eu acho que tive uns três amigos
assim, na vida toda. Uns dois na infância, que nunca mais revi, e ele, o
último, encontrado tardiamente na faculdade, no terceiro ou quarto ano da PUC,
quando passei para o período noturno. Amigos assim, sem razão ou interesse, sem
mais explicação, a gente traz da infância ou não acha mais. E o perdi sem
entender nada. Sem saber se tinha errado na mão, na conversa ou na falta dela.
Não brigamos. De repente, ele não me atendia mais ao telefone. Tentei falar muitas
vezes. Numa delas, ele me atendeu meio apressado, telegráfico, e à minha
pergunta sobre o que tinha acontecido, sobre nos vermos dia destes, dizia
simplesmente “tá complicado”. Mas porque? “Tá complicado em casa”. E eu
insistindo. De repente, deixou escapar: “você é um sacana”. E eu: porque? O que
houve? Vamos conversar! Vamos tomar um uísque. Vamos a um bar. E ele: “não dá,
tá complicado”. Telefonei ainda várias vezes e nada. Sem contato. É como
lembro. Deixei correr, então, respeitando a decisão do amigo e dizendo a mim
mesmo que quando desse, ele me ligaria. Ou a gente se cruzaria. Aconteceu alguma
merda, mas uma hora a gente senta e conversa. E a vida correu, de fato, cheia
de novidades. Estávamos no final de 1992, início de 1993. Em março de 93, fui nomeado
para um cargo público, um dos maiores desafios profissionais da vida, que me
obrigou a ter uma vida louca, uma agenda mais ainda. Estava a todo momento nos
jornais. Ele não podia ignorar! Apesar disso, nenhuma notícia; nem parabéns,
nem votos de sucesso, nem oi. Pensei comigo: o negócio é sério...
O tempo foi passando e eu ficando
contrariado com a inexplicável ausência de notícias. Orgulhoso, disse a mim
mesmo que após tantos telefonemas meus era ele que tinha de ligar. Fui ficando
magoado com a história, indignado com a ausência de explicação, sobretudo com a
ausência do amigo. Decepção. Ora, que amizade era aquela, que acabava sem que
ele, ao menos, me mandasse tomar no cú? Afinal, tínhamos passado muitos pedaços
juntos, sempre juntos. Vimos os filhos nascerem (o filho dele, Zé Paulo, nasceu num dia em
que jantávamos na casa da sogra dele, onde eles moravam e, de repente,
as contrações – fomos os quatro ao Eisntein, no meu carro). Acompanhamos as idas e
vindas dos respectivos casamentos, as crises de família, as incertezas
profissionais. Não era uma amizade social, nem de casal. Verdade que os casais
eram amigos, mas éramos amigos independentemente do estado de espírito de cada
casal ou da proximidade das respectivas esposas que, como todas as mulheres,
tinham lá seus temperamentos variando ao sabor dos hormônios de plantão, ou
daquelas razões super lógicas delas como um olhar atravessado, um comentário
sobre a saia ou sobre o serviço do jantar, sei lá. Essas coisas de mulher que não entenderemos jamais. Já tínhamos sobrevivido a tudo isso.
Começamos nossas carreiras juntos, acompanhando cada passo, torcendo pelo
outro, discutindo, pentelhando, dando palpite nas decisões, se metendo na vida,
procurando ajudar. Difícil entender o que houve.
Ao entrar em sua sala, conduzido
pela secretária, encontrei-o de pé e reconheci imediatamente o olhar de cima,
maroto, direto no olho. Aquele conhecido sorriso contido e eu, sem saber o que
fazer, se o abraçava ou lhe dava um murro no peito, estendi-lhe a mão. Sentamos e
logo o papo dele que corria solto, redondo, fácil como sempre, conectou-me
imediatamente àquela figura que não via há quase dez anos. Que me olha de lado
naquela expressão zombeteira, só sua. Confesso que fiquei meio sem jeito, meio
sem graça. Não achei o meu personagem nem o meu discurso e fomos logo almoçar,
contando, no caminho, fragmentos de notícias da vida de um e do outro. Íamos
cercando os assuntos até chegar ao restaurante do Shopping Iguatemi. E o papo
continuava, o dele sempre mais fluente que o meu, como sempre. Foi
extraordinário vê-lo assim, neste estado. Falante, sensível, seguro de
si, vencedor. É o mesmo, mas também é outro. Agregou valor, sabedoria,
sobretudo franqueza. Expõe melhor as idéias, acha as palavras, diz-se mais
autêntico. Carrega suas fragilidades e fraquezas como troféus. Teve pânico e
outras coisas que não sei. Certamente “terapeutou”. Suas abordagens estão mais
amplas, mais profundas, mais “autênticas”, como diz. Foi dando notícias por
capítulos curtos: o filho Zé Paulo ocupou um bom espaço da conversa. Falei-lhe um pouco dos
meus. A história de nossos escritórios tomou a maior parte do tempo.
Compreensível que a gente comece por aí. Não falamos das mulheres e dos
casamentos (ainda). Sabedoria nossa. Para isso, temos a vida toda
e ainda assim o assunto não acaba. O almoço avançando e eu engasgado com a
pergunta: “afinal, o que aconteceu?” Poderia sair dali sem a resposta, como de
fato saí. Pouco importa. Mas não sem ter feito a pergunta. Ele me falou de
outra coisa, de um desequilíbrio nas amizades, de dedicação dele sem
correspondência minha. Que me sentiu fechado quando ele estava aberto, exposto.
Esta a razão do afastamento. Confesso que fiquei um pouco chocado com a
resposta e lhe disse. Ao que retrucou “você sabe do que eu estou falando”.
Vasculhei minha fraca memória para ver se deveria saber do que falava e nada
achei. Falei então das distâncias que a vida nos impôs, do tempo da França, dos
encontros que passaram a ocorrer sempre no grupo de amigos, dos dias difíceis,
das turbulências nos casamentos, da correria do trabalho. Ficamos de nos
encontrar na segunda-feira seguinte. Talvez sempre às segundas, quem sabe?
E me flagro
no aguardo da segunda-feira.