Os donos da verdade, arautos da virtude e a maldita Geni
Há algo mais enjoativo que conversa de dono da verdade? E o que dizer da ladainha dos arautos da virtude? E quando se juntam na mesma virtuosa e puríssima pessoa? É incrível com que facilidade se julga o caráter alheio, se critica o próximo e se dirige um olhar severo de censura e repreensão ao erro daquele que está ao lado, ao escorregão do que está à sua frente, ao tropeço daquele ali atrás.
Não é por nada, mas esses julgamentos definitivos do caráter alheio são uma verdadeira chatice, quando não um engodo. Vindos de jovens ingênuos, embalados pela quadratura da ideologia utópica - fase da vida por que todos já passamos -, ainda são compreensíveis, por vezes até divertidos. O duro é quando vêm de gente madura, velha de guerra, que tem a certeza moralista dos obtusos, dos que amadureceram com amargor no coração, ressentimentos na alma e contas a acertar com a vida que não lhes sorriu muito. Gente apegada às mágoas, colecionadas com fervor, guardadas no fundo daquela gaveta que cheira a naftalina, no centro de um coração enregelado.
Digo sem generalizar, mas reparo que os mais rígidos pertencem a uma horda de desmemoriados, uma turma de ex-pecadores, "ex" alguma coisa. Ex-biscates, ex-putas, ex-alcoólatras, ex-fumantes, ex-viciados, ex-boêmios. Os que passaram por alguma forma de - perdoe-se o trocadilho - (ex)comunhão social em algum momento da vida. Como dito, não todos, nem a maioria. Mas alguns destes, ao vencerem a própria fraqueza, o vicio atroz, ao voltarem a comungar socialmente, ao invés de humanizarem-se tornam-se ditadores; não só de si mas da virtude alheia, da regra do bom comportamento, não raro da verdade absoluta - ela mesma, aquela que a humanidade procura desde sempre. Falo daquele que diz "comigo nunca, comigo jamais", que aponta o dedo ao outro e julga-lhe os erros, os deslizes, os defeitos. Este ser, encostadinho na perfeição, não tem pensamentos impuros, não faz parte da ralé pecadora. Este não erra. Este nunca desvia-se do caminho da verdade, da pureza e da retidão. Este arauto passa por uma espécie de amnésia dos seus deslizes pretéritos, perde a humanidade e toma-se por alguma divindade no julgamento definitivo do restante dos mortais. Um projeto de Hitler, candidato a Bispo enganador de alguma seita. Esquece o pequeno ditador que todos erramos, todos deslizamos, todos vivenciamos o nosso "dark side of the moon". Está no nosso DNA. A imperfeição é "cromossômica". Dentre nossos muitos deslizes, está o de julgar apressadamente uns aos outros, o de falar mal - deliciosamente, aliás - uns dos outros, o de acusar (por vezes levianamente), uns e outros.
Falamos e fazemos bobagem. Isso é humano. E a dimensão humana disso é justamente saber que no fundo nada é definitivo, que não podemos levar-nos a sério, que nossos julgamentos são falhos, que nossa memória é falha e seletiva, que as coisas não podem nem devem ser levadas a ferro e a fogo. Por isso há tribunais, que revisam sentenças. Por isso há pais, que perdoam os filhos. Há amigos, que relevam sandices. Há o tempo, que cicatriza as feridas e traz novas perspectivas. O pressuposto é a imperfeição: as pessoas erram, acertam, arrependem-se, aprendem. Ou não, e erram novamente.
O ditadorzinho de plantão não percebe que a vida é curta, que não somos os donos nem da verdade, nem da virtude, nem da sapiência, nem da onisciência. Quanto mais certeza e peremptoriedade vejo em acusações, mais desconfio do caráter de quem julga. E mais pequeno e limitado me parecem o seu espírito e sua alma.
O ditadorzinho de plantão não percebe que a vida é curta, que não somos os donos nem da verdade, nem da virtude, nem da sapiência, nem da onisciência. Quanto mais certeza e peremptoriedade vejo em acusações, mais desconfio do caráter de quem julga. E mais pequeno e limitado me parecem o seu espírito e sua alma.
Triste é esse pequeno Hitler de alma tacanha, que tem certeza de tudo, que é dono da verdade, da moral e da virtude. Este não perdoa, não releva, não supera, não vira o disco; este joga pedra e bosta na Geni. Afinal, ela dá para quem quiser, ela dá para qualquer um.
Maldita Geni.
