quinta-feira, 24 de abril de 2014

Sentidos do silêncio

Sentidos do silêncio

A palavra é de prata e o silêncio é de ouro, diz o ditado. É mais sábio calar que falar; é mais esperto ouvir que manifestar. É mais seguro apenas pensar. 

As palavras são mesmo atabalhoadas, desengonçadas, degringoladas. São imprecisas e raramente traduzem bem nossas emoções. Vale mais ouvir que falar.

Além de sábio, o silêncio pode ser um poderoso aliado. E também mordaz. Irritante, frustrante, provocante ou arrogante, o silêncio é, por vezes, um dolorido sinal de malquerença, um torturante testemunho da indiferença ou da saudade, ausência da presença. 

O silêncio não é unívoco. Pode ser defesa, pode ser esconderijo. Pode ser a face do menosprezo ou a escaramuça, o disfarce, a dissimulação, as marcas da desconfiança.

No amor, o silêncio é uma tragédia ou é resultado dela. O amor suporta mal o silêncio. Amor requer atitude, postura e expressão. 

O amor quer que se diga sempre, mostre sempre, gesticule, olhe, alise, acaricie. Se for o caso sussurre, gema, grite, escreva na areia, no ar ou no papel; se der, cante, declame, minta, exagere, bata na cara. 

Só não fique em silêncio. 

Deixe o silêncio para os mortos.

domingo, 20 de abril de 2014

Toto: uma resposta da tecnologia às nossas necessidades básicas

     Você conhece o Toto? Pois é, eu também não o conhecia até chegar ao Japão e descobrir essa novidade espantosa. Coisa de uma civilização avançadíssima. Escreve-se Toto mesmo, sem acento em nenhum "o". Tenho a impressão que os japoneses pronuciam "Tôto" -  a conferir. No Brasil, certamente viraria Totó.

    Fico aparvalhado com o quanto o avanço tecnológico pode nos surpreender e com que velocidade. As consequências acabam por afetar as nossas vidas no que nelas há de mais íntimo e recatado.

     Vou direto ao assunto: Toto é uma surpreendente e revolucionária privada. Essa mesmo, a peça de banheiro que também chamamos de vaso sanitário, o velho "troninho" da nossa infância.

     Ao adentrar num banheiro tecnologicamente avançado, Toto apresenta-se a você sem rodeios. Visualmente, lembra uma privada, meio gordinha, é verdade. Mas é outra entidade, com várias funções acopladas. A primeira delas é o aquecimento do assento. Sente-se nesta nova maravilha tecnológica e sinta como é quentinho o seu assento, a ponto de você ter a nítida impressão de que alguém acabou de sair dali. Mas não, é que Toto simplesmente o surpreende com esse inesperado e aconchegante calor. Acabou-se a sensação de geladinho da tampa ao sentar-se no trono. Uma vez instalado e calorosamente acolhido, você se dará conta de que ao alcance da sua mão direita há um painel com diversos botões digitais. Ali você descobrirá as funções de ligar e desligar, aumentar ou diminuir a temperatura do assento e, pasme, a função bidê ou chuveirinho, escolha entre os dois. Inacreditável! Ao apertar uma dessa opções (bidê ou chuveirinho), o que supostamente você fará uma vez terminado o seu chamado da natureza, surge milagrosamente um pequeno e discreto braço embaixo do assento que lhe espirra água morna no rabo. Não se assuste, ele não o seviciará nem o submeterá a uma desconcertante situação. E você perceberá, olhando o painel, que poderá controlar tanto a temperatura como a pressão da água que lhe é dirigida  - respeitosamente, é claro - às partes baixas. A diferença entre as funções bidê e chuveirinho não parecem muito claras; é preciso um pouco mais de experiência e intimidade para afirmar. Talvez seja um ponto em desenvolvimento para a próxima geração de Totos.

       Para coroar os trabalhos, Toto lhe oferece outra revolucionária função: a de "secador". Apertando o respectivo botão no painel, um enérgico sopro de ar morno dirige-se às suas nádegas, evitando assim o incômodo de ter-se de secar a bunda com papel após o usufruto de tantos banhos de assento.

      Depois de ser apresentado ao Toto, você nunca mais será o mesmo; não viverá mais sem ele. O ato de ir ao banheiro para desincumbir-se das nossas pré-históricas necessidades biológicas deixará de ser um daqueles atos que nos lembram que pertencemos ao mundo animal. Passará a ser um momento de conforto, de acolhimento, talvez de compensação de carências afetivas e, quiçá, um poderoso aliado aos anti-depressivos tão em voga. 

     Portanto, basta de chamar a ida ao toalete de "castigar a porcelana", "conferenciar com o Almirante Barroso" e outras do gênero. Doravante, esse ato solene e inescapável de todos nós passará a ser um momento de distanciado conforto, relaxamento e prazer. Esse momento que nos faz pensar na vida, refletir sobre os acontecimentos, certamente mudará de patamar na cultura da humanidade.