sábado, 22 de novembro de 2014

Da tal felicidade

Da tal felicidade

Há pouco li um texto gostosa e talentosamente escrito sobre a simplicidade de aceitar a felicidade que tromba conosco a cada dia, ou quase. Bem que eu gostaria de encontrar a tal felicidade onde estou e no exato momento em que a quero. Mas existe mesmo essa tal felicidade? Vende-se na farmácia em comprimidos, gotas ou solução injetável? Estaria ela na tenda da bruxa, no terreiro de candomblé, no banco da igreja, na sala de massagem, na chegada de algo muito desejado? Estará nos braços da amada, no colo da mãe, no gesto de aprovação do pai, no  olhar carinhoso do filho? 

Está sim, em tudo isso. São esses rápidos momentos de forte emoção que nos trazem essa sensação de plenitude, de encontro, de satisfação com a vida. É preciso reconhecer e aceitar esses momentos mágicos como mágicos e guardá-los no cofrinho do coração para contrapô-los àqueles das perdas, das amarguras, das dores solitárias que nos assaltam de quando em vez. Vivi outro dia um desses momentos de intensa emoção numa simples conversa com meus filhos em torno de uma mesa de churrascaria. Percebi, realizado, que estava ali diante de dois bons homens, de caráter, talento, personalidade e boa energia. Encontrei meu momento de plenitude, de encontro com uma missão da vida. E me emocionei.

domingo, 24 de agosto de 2014

A emoção na memória do vinho

 Memória do vinho

 Gosto não se discute; lamenta-se, diz o ditado. 

 Nelson Rodrigues dizia que a unanimidade é burra. Tão burra quanto as certezas absolutas de um jovem, tão besta quanto a assertividade do militante radical, tão estúpida quanto a arrogância do ignorante. Em quase tudo o que diz respeito à nossa percepção sensorial, há discussão, diferenças de pontos de vista, memórias desencontradas, díspares, contraditórias.

 Sobretudo sobre o gosto. Gosto depende de referência. Ou melhor, das referências. Se o sujeito nunca experimentou uma laranja e uma mexerica, não terá repertório para distinguir uma de outra. Se não foi apresentado aos pintores impressionistas, não poderá diferenciá-los dos renascentistas ou dos contemporâneos. Que o diga Brillat Savarin.

 O mundo do vinho não é diferente. Pode-se estudar vinho e aprender de cor as regiões, os tipos, os produtores, as variedades das uvas e as características organolépticas de cada vinho. Pode-se ler e memorizar suas detalhadas descrições, feitas pelos "experts". Porém, sem experimentar cada um, o conhecimento é meramente intelectual, enciclopédico; o sujeito não tem condição de avaliar um vinho apenas porque "ouviu dizer" que ele tem boa acidez e que é agradável no pálato. Pode repetir as opiniões de quem o fez, apenas. Como um papagaio.

Muito bem. O chamado "gosto sofisticado", - aquele capaz de identificar um grande número de nuances -, forma-se de uma vivência atenta, de uma larga experiência que se acumula em camadas que se sedimentam na memória e no coração de quem tem muitos pontos de referência e de comparação. A memória, nesse caso, é um misto de sensações gustativas (aromas, cores, sensações de boca como acidez, amargor, doçura, etc) associadas a observações de caráter racional (nome do produtor, região, safra, etc) proporcionadas pela experiência vivida num copo daquele vinho. E acrescento: num determinado lugar, em companhia de determinada pessoa, acompanhando um determinado prato e, finalmente, vivendo um determinado estado de espírito. Não se trata, portanto, da memória de um conhecimento linear, mas de uma "experiência", um misto de sensações olfativas, gustativas e sociais, associadas a algumas referências de dados frios como safra, ano, preço, produtor, etc.

 Ora, se esse conhecimento vem do conjuntos de experiências vividas, é certo que um jovem sommelier é uma contradição em termos, um oxímoro. Se é jovem, ainda que talentoso, de sensibilidade aguçada e memória privilegiada, não teve ainda a oportunidade de criar cultura, de degustar vinhos o suficiente das diversas safras das diversas regiões do planeta. E há muitas variações, há inúmeras. Lançam-se novos vinhos todos os dias. Assim, um jovem talentoso e curioso será sempre, e apenas, um projeto de sommelier. Um verdadeiro sommelier precisa de muitos anos e muitos litros de vinho para formar as camadas de vivência necessárias a um profissional desse ramo. Além, é claro, de bom nariz, boa boca e a tal da privilegiada memória gustativa. Essa capacidade de identificar (e nomear) os aromas com alguma clareza, que poucas pessoas tem.

Nós, humanos, evoluímos a espécie atrofiando uma série de percepções sensoriais, por não serem mais essenciais à nossa sobrevivência. O olfato é uma delas. Um cão sente o cheiro de uma cadela no cio a três quilômetros de distancia. Cada um de nós tem seu próprio odor e reconhece o dos próximos, apesar de mascarado pelos perfumes, cremes, sabonetes, shampoos, desodorantes que usamos todos os dias. Ou seja, criamos uma confusão olfativa para nós mesmos. Ao usarmos perfumes, criamos disfarces do nosso próprio odor, damos a ele uma vestimenta, escamoteando nossa identidade original. Isso mostra o quanto deixou de ser importante o olfato para a nossa sobrevivência.

 Claro que os amantes ainda se enebriam com os odores dos amados. Claro que ainda rejeitamos o leite talhado e o alimento estragado. Mas perdemos muito da confiança que já tivemos no passado no sentido do olfato. O ser humano concentrou suas percepções no sentido visual.

 Mas voltemos a um curioso fato no mundo do vinho, que é o momento em que se experimenta o mesmo. Dependendo da companhia, do lugar, da temperatura, da fase da vida e do humor vividos naquele instante, entre muitos outros fatores, gostamos mais ou menos do vinho que experimentamos. Fazemos associações mais positivas ou negativas. As diversas emoções se misturam às percepções sensoriais. Quantas vezes não nos deliciamos com um vinho tomado numa viagem de férias e, ao abrir o mesmo em casa, para onde voltamos com uma garrafa debaixo do braço, percebemos que não era tão fantástico assim? É que aquela primeira experiência foi influenciada pela emoção da beleza do lugar, pelo clima, pelo momento especial que então vivíamos e influenciou, assim, nossa percepção de uma experiência gostosa, inesquecível. Esse conjunto de emoções associado a sensações não se reproduz facilmente. Por isso diz-se que a melhor adega não é a física - mas sim aquela que está na memória das pessoas. E certamente não é uma memória técnica, acadêmica. É uma memória emocional, que se desenvolve e engrandece com a companhia de com quem se partilha aquele momento. 

 Por isso duvido das notas do Robert Parker, Wine Expectator e outros. Não se pode acreditar em opiniões pretensamente "técnicas" e isentas sobre um vinho. É preciso dar o devido desconto (cultural, emotivo e social) a tais avaliações. E não esquecer que não interessa apenas o que se bebe, mas com quem se bebe e em que condições.

Para que o vinho não azede.



domingo, 17 de agosto de 2014

Censura, esta velha ranheta

Censura

 Escrevo porque não resisto. É uma necessidade. Nem sempre é o assunto que me move. Boa parte das vezes é apenas o meio de encontrar um canal com o cara interno; e dali surgem os mais diversos resultados, de barbaridades a campos floridos. Perdoem-me as barbaridades, que fiquem os campos floridos.

 Sinto-me censurado internamente, no momento. Falar sobre o que, nesta condição? Sobre a dificuldade de dizer o que quero? Sobre a censura que impede a conversa? Sim, sobre esta severa senhora: a censura. Talvez sobre amor e censura... não! Não existe isso de amor e censura, vamos evitar esta armadilha para não acabar falando de amor.

 A censura é parte integrante do ser humano; isto é um fato. A censura é uma forma de controle social, de exercício de poder, uma forma eficiente de imposição de valores. O ser humano julga, aprova, reprova ou fica indiferente diante dos acontecimentos. Assim, sempre haverá quem nos censure, por isso ou por aquilo. Se não são os outros, somos nós mesmos. A censura é uma forma de "enquadrar". Pela roupa, pelo corte de cabelo, pela escolha do prato, pela opção sexual, pela opção política, pelos vícios, pelos deslizes, pelos erros, pelo comportamento e assim por diante. 

 E esta senhora se manifesta de diversas formas: o julgamento alheio, a fofoca, a maledicência.

 Desta severa senhora, não escapamos. Portanto convivamos com ela, tratêmo-la bem para mantê-la assim mansinha, sob controle e, se possível, distraída para nos dar espaço. Para que possamos nos divertir no quintal da liberdade, vigiado por esta velha ranheta.

 Só resta a liberdade de dizer. Sem ela, o silêncio.



domingo, 10 de agosto de 2014

Mulher madura

Mulher Madura

Donas de uma sensibilidade ímpar e uma intuição monstro, elas ouvem e lêem as entrelinhas da voz dos seus filhos, dos seus homens, dos seus amantes; enxergam suas feridas no escuro, sentem suas dores e angústias a enormes distâncias. São assim antenadas as mulheres maduras. Querem proteger, preservar, alimentar, cuidar dos seus. Rasgam o coração, descem do pedestal, esgarçam os tecidos dos nervos expondo-os aos perigos das intempéries para manter-se no domínio. 

Na conquista, transformam-se, pintam-se, perfumam-se, vestem-se como se se despissem, sobem nos saltos mais altos e incômodos para realçar a postura e tornam-se divas, enfeitiçam, ensurdecem e enlouquecem quem quiserem. Com o olhar apenas, com trejeito, com o mexer nos cabelos, com o roçar dos dedos, com a brisa dos cílios, o movimento dos lábios e o tom macio da voz. Advinham os desejos daqueles que amam, antecipam-lhes a querência, os movimentos, as direções. Adaptam-se às temperaturas dos humores de seus homens e, à luz de velas, acendem-lhes os fogos da paixão e da loucura. Assim são as feiticeiras maduras quando amam. Tornam-se bruxas que amam com profundidade, com brutalidade, com fatalidade, com totalidade. E sabem feitiços, bruxarias, truques, trabalhos, o que for, que lhes mantenha o poder sobre seus homens.

Não há juventude, pele fresca, cheiro de fruta ou o que seja que possa enfrentar o feitiço de uma mulher madura.


sábado, 9 de agosto de 2014

Elas não sabem (dia dos pais)

Elas não sabem (sobre o dia dos pais)

Há dia para tudo nos tempos que vivemos. Dia da costureira, dia do advogado, da secretária, da criança, das mães e dos pais. Nos 365 dias do ano, caberia até um dia do depressivo, do louco varrido, do assaltado, da ninfomaníaca, do taradão, do cidadão. Cada dia é dia de alguém. 

Amanhã é dia dos pais. Nunca ouvi falar de dia dos filhos; da criança sim, mas do filho não. Engraçado é que não dá para falar de pai sem falar de filho. O contrário até pode. Mas no dia dos pais, data bastante deturpada comercialmente, lembro do papel de pai e de filho que tenho a sorte de vivenciar hoje, das referências que tenho e que vivi, dos pesos e delícias desses papeis que - um dia chegará -, culminarão com o de avô. Um dia eu falo do meu pai, figura forte, complexa, presente em minha vida. Hoje não. Não é [o meu] momento de falar nele. Hoje é dia de falar dessa necessidade atávica de se perpetuar no mundo, de plantar semente, de contribuir para a sobrevivência da espécie e de reparar no quanto nos afastamos da medida do simples, do direto e do evidente. Com dificuldade de sair do clichê, da frase feita, do pensamento redundante. E reparar na figura paterna como uma bússola interna, que emerge após matarmos o pai no final da adolescência e ressuscitá-lo mais tarde na vida adulta, quando o homem se reconcilia consigo através do privilégio de vir a ser, ele também, pai.

As mulheres não sabem disso. A paternidade para elas é outra coisa. Só uma mulher poderá dizer com pertinência o significado do pai para elas; que ela o faça. Não digo que não é importante o pai na vida das moças, muito ao contrário, às vezes chega a ser doentiamente importante. O que digo é que a maternidade é tão mais forte e mais impressionante para a humanidade, que nós homens aprendemos a nos conformar com esse papel coadjuvante. 

Para compensar, nesses tempos de platitudes simplistas como a afirmação fictícia de uma ridícula e patética igualdade entre homens e mulheres, seres não apenas naturalmente desiguais mas, para além disso, muito diferentes, pensar na paternidade nos ajuda por pingos em "is". Pensar que servimos para plantar uma semente...

sábado, 2 de agosto de 2014

Semi Deus

Semi Deus

Você já se sentiu um semi Deus? Já foi acusado de semi Deus? Já pensou no que consistiria um semi Deus? Semi Deus seria um daqueles estados de espírito da pessoa que se sente acima do bem e do mal? Que se julga onisciente, onipotente, que só tem a si como referência, só pensa em si e entende que nunca erra, só acerta? Será aquele que não tem culpa nem arrependimento do que fez e do que faz? Será aquele que não se dá nem presta conta de seus atos, não imagina as conseqüências que podem gerar para os demais?

Ora, semi Deus não será aquele julga os demais? Não será quem acha que tem legitimidade de apontar o dedo aos erros dos outros e sentenciar-lhes a chama do inferno? Semi Deus não é aquele que não tem pecado a manchar-lhe a reputação, que não tem falha de espírito, não tem rachadura na alma? Por isso a autoridade para acusar e julgar?

Afinal, o que será um semi Deus? Porque será ele "semi" Deus e não Deus inteiro? O que lhe falta? Semi Deus, afinal, é Deus que falha? 

Ora, se falha não é Deus; nem inteiro nem metade. Se falha é humano. É só humano. E se é humano, tem parte com Deus. Seja ele (Deus) quem ou o que for. Se for humano tem pecado, aparente ou escondido.



sábado, 19 de julho de 2014

Os donos da verdade, arautos da virtude e a maldita Geni

Os donos da verdade, arautos da virtude e a maldita Geni

Há algo mais enjoativo que conversa de dono da verdade? E o que dizer da ladainha dos arautos da virtude? E quando se juntam na mesma virtuosa e puríssima pessoa? É incrível com que facilidade se julga o caráter alheio, se critica o próximo e se dirige um olhar severo de censura e repreensão ao erro daquele que está ao lado, ao escorregão do que está à sua frente, ao tropeço daquele ali atrás. 

Não é por nada, mas esses julgamentos definitivos do caráter alheio são uma verdadeira chatice, quando não um engodo. Vindos de jovens ingênuos, embalados pela quadratura da ideologia utópica - fase da vida por que todos já passamos -, ainda são compreensíveis, por vezes até divertidos. O duro é quando vêm de gente madura, velha de guerra, que tem a certeza moralista dos obtusos, dos que amadureceram com amargor no coração, ressentimentos na alma e contas a acertar com a vida que não lhes sorriu muito. Gente apegada às mágoas, colecionadas com fervor, guardadas no fundo daquela gaveta que cheira a naftalina, no centro de um coração enregelado.

Digo sem generalizar, mas reparo que os mais rígidos pertencem a uma horda de desmemoriados, uma turma de ex-pecadores, "ex" alguma coisa. Ex-biscates, ex-putas, ex-alcoólatras, ex-fumantes, ex-viciados, ex-boêmios. Os que passaram por alguma forma de - perdoe-se o trocadilho - (ex)comunhão social em algum momento da vida. Como dito, não todos, nem a maioria. Mas alguns destes, ao vencerem a própria fraqueza, o vicio atroz, ao voltarem a comungar socialmente, ao invés de humanizarem-se tornam-se ditadores; não só de si mas da virtude alheia, da regra do bom comportamento, não raro da verdade absoluta - ela mesma, aquela que a humanidade procura desde sempre. Falo daquele que diz "comigo nunca, comigo jamais", que aponta o dedo ao outro e julga-lhe os erros, os deslizes, os defeitos. Este ser, encostadinho na perfeição, não tem pensamentos impuros, não faz parte da ralé pecadora. Este não erra. Este nunca desvia-se do caminho da verdade, da pureza e da retidão. Este arauto passa por uma espécie de amnésia dos seus deslizes pretéritos, perde a humanidade e toma-se por alguma divindade no julgamento definitivo do restante dos mortais. Um projeto de Hitler, candidato a Bispo enganador de alguma seita. Esquece o pequeno ditador que todos erramos, todos deslizamos, todos vivenciamos o nosso "dark side of the moon". Está no nosso DNA. A imperfeição é "cromossômica". Dentre nossos muitos deslizes, está o de julgar apressadamente uns aos outros, o de falar mal - deliciosamente, aliás - uns dos outros, o de acusar (por vezes levianamente), uns e outros. 
Falamos e fazemos bobagem. Isso é humano. E a dimensão humana disso é justamente saber que no fundo nada é definitivo, que não podemos levar-nos a sério, que nossos julgamentos são falhos, que nossa memória é falha e seletiva, que as coisas não podem nem devem ser levadas a ferro e a fogo. Por isso há tribunais, que revisam sentenças. Por isso há pais, que perdoam os filhos. Há amigos, que relevam sandices. Há o tempo, que cicatriza as feridas e traz  novas perspectivas. O pressuposto é a imperfeição: as pessoas erram, acertam, arrependem-se, aprendem. Ou não, e erram novamente.

O ditadorzinho de plantão não percebe que a vida é curta, que não somos os donos nem da verdade, nem da virtude, nem da sapiência, nem da onisciência. Quanto mais certeza e peremptoriedade vejo em acusações, mais desconfio do caráter de quem julga. E mais pequeno e limitado me parecem o seu espírito e sua alma.

Triste é esse pequeno Hitler de alma tacanha, que tem certeza de tudo, que é dono da verdade, da moral e da virtude. Este não perdoa, não releva, não supera, não vira o disco; este joga pedra e bosta na Geni. Afinal, ela dá para quem quiser, ela dá para qualquer um.

Maldita Geni.


domingo, 29 de junho de 2014

O conflito de papeis da incrível geração atual

O conflito de papeis da incrível geração atual

Fico um tanto atônito com o conflito de papeis entre homens e mulheres desta geração que hoje está entre 25 e 45 anos. Muita informação, pouca reflexão, muitos princípios em jogo. O feminismo, o pós feminismo, uma era de homens bananas e infantilizados e mulheres masculinizadas, poderosas (e insatisfeitas). Uma confusão. Elas tudo querem: liberdade, igualdade, maternidade, profissionalidade, dinheiro, independência, poder.  Conseguiram. Eles, aparentemente, nada querem, nem o que já tinham: querem jogar video game até os 35 e conviver, se possível em paz, com as confusas meninas e suas expectativas entre empunhar a espada de uma causa e encontrar seu devido e merecido lugar "neste mundo masculino". E, claro, encontrar o carinhoso príncipe encantado pós feminista. Ainda não se sabe quem é um e quem é outro, que tipo de família se formará. Ou se será apenas uma "parceria" moderninha.

A amiga Adilia Belotti difundiu no Facebook um belo texto da blogueira Ruth Manus, sobre o assunto. Em seguida, achei a resposta do também blogueiro Guilherme Archas. Ambos os textos são escritos com arte, inteligentes, espirituosos e francos. E mostram como os homens e mulheres desta geração estão de costas um para o outro. Os textos estão reproduzidos abaixo para quem se interessar pelo assunto, com as referências devidas.

Essa geração está bem ferrada.



RUTH MANUS
Retratos e relatos do cotidiano de uma jovem como tantas outras

Às vezes me flagro imaginando um homem hipotético que descreva assim a mulher dos seus sonhos:
“Ela tem que trabalhar e estudar muito, ter uma caixa de e-mails sempre lotada. Os pés devem ter calos e bolhas porque ela anda muito com sapatos de salto, pra lá e pra cá.
Ela deve ser independente e fazer o que ela bem entende com o próprio salário: comprar uma bolsa cara, doar para um projeto social, fazer uma viagem sozinha pelo leste europeu. Precisa dirigir bem e entender de imposto de renda.
Cozinhar? Não precisa! Tem um certo charme em errar até no arroz. Não precisa ser sarada, porque não dá tempo de fazer tudo o que ela faz e malhar.
Mas acima de tudo: ela tem que ser segura de si e não querer depender de mim, nem de ninguém.”
Pois é. Ainda não ouvi esse discurso de nenhum homem. Nem mesmo parte dele. Vai ver que é por isso que estou solteira aqui, na luta.
O fato é que eu venho pensando nisso. Na incrível dissonância entre a criação que nós, meninas e jovens mulheres, recebemos e a expectativa da maioria dos meninos, jovens homens,  homens e velhos homens.
O que nossos pais esperam de nós? O que nós esperamos de nós? E o que eles esperam de nós?
Somos a geração que foi criada para ganhar o mundo. Incentivadas a estudar, trabalhar, viajar e, acima de tudo, construir a nossa independência. Os poucos bolos que fiz na vida nunca fizeram os olhos da minha mãe brilhar como as provas com notas 10. Os dias em que me arrumei de forma impecável para sair nunca estamparam no rosto do meu pai um sorriso orgulhoso como o que ele deu quando entrei no mestrado. Quando resolvi fazer um breve curso de noções de gastronomia meus pais acharam bacana. Mas quando resolvi fazer um breve curso de língua e civilização francesa na Sorbonne eles inflaram o peito como pombos.
Não tivemos aula de corte e costura. Não aprendemos a rechear um lagarto. Não nos chamaram pra trocar fralda de um priminho. Não nos explicaram a diferença entre alvejante e água sanitária. Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração.
Mas nos ensinaram esportes. Nos fizeram aprender inglês. Aprender a dirigir. Aprender a construir um bom currículo. A trabalhar sem medo e a investir nosso dinheiro.  Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração.
Mas, escuta, alguém  lembrou de avisar os tais meninos que nós seríamos assim? Que nós disputaríamos as vagas de emprego com eles? Que nós iríamos querer jantar fora, ao invés de preparar o jantar? Que nós iríamos gostar de cerveja, whisky, futebol e UFC? Que a gente não ia ter saco pra ficar dando muita satisfação? Que nós seríamos criadas para encontrar a felicidade na liberdade e o pavor na submissão?
Aí, a gente, com nossa camisa social que amassou no fim do dia, nossa bolsa pesada, celular apitando os 26 novos e-mails, amigas nos esperando para jantar, carro sem lavar, 4 reuniões marcadas para amanhã, se pergunta “que raio de cara vai me querer?”.
“Talvez se eu fosse mais delicada… Não falasse palavrão. Não tivesse subordinados. Não dirigisse sozinha à noite sem medo. Talvez se eu aparentasse fragilidade. Talvez se dissesse que não me importo em lavar cuecas. Talvez…”
Mas não. Essas não somos nós. Nós queremos um companheiro, lado a lado, de igual pra igual. Muitas de nós sonham com filhos. Mas não só com eles. Nós queremos fazer um risoto. Mas vamos querer morrer se ganharmos um liquidificador de aniversário. Nós queremos contar como foi nosso dia. Mas não vamos admitir que alguém questione nossa rotina.
O fato é: quem foi educado para nos querer? Quem é seguro o bastante para amar uma mulher que voa? Quem está disposto a nos fazer querer pousar ao seu lado no fim do dia? Quem entende que deitar no seu peito é nossa forma de pedir colo? E que às vezes nós vamos precisar do seu colo e às vezes só vamos querer companhia pra um vinho? Que somos a geração da parceria e não da dependência?
E não estou aqui, num discurso inflamado, culpando os homens. Não. A culpa não é exatamente deles. É da sociedade como um todo. Da criação equivocada. Da imagem que ainda é vendida da mulher. Dos pais que criam filhas para o mundo, mas querem noras que vivam em função da família.
No fim das contas a gente não é nada do que o inconsciente coletivo espera de uma mulher. E o melhor: nem queremos ser. Que fique claro, nós não vamos andar para trás. Então vai ser essa mentalidade que vai ter que andar para frente. Nós já nos abrimos pra ganhar o mundo. Agora é o mundo tem que se virar pra ganhar a gente de volta.

A resposta de Guilherme Archas

A incrível geração de homens que NÃO aparenta ser incrível (Carta à Ruth Manus)
Este texto é uma resposta à Ruth Manus, autora do artigo “A incrível geração de mulheres que foi criada para ser tudo o que um homem NÃO quer“.
Um homem cresce pensando em ser jogador de futebol, astronauta, bombeiro. Não nascemos pensando em casar. Só que chega uma certa idade em que percebemos que uma companhia feminina pode ser a cereja do bolo que nos falta. E, de forma natural, começamos a procurar uma parceira pro resto da vida, aquela que poderá dar um pouco mais de significado à palavra “família”.
Engana-se, porém, quem acha que é fácil encontrar alguém que te complete. No meio de tanta gente interesseira, prostituição a um clique de distância, corpos torneados de academia e cérebros vazios, fica difícil distinguir quem não quer te consumir como um simples maço de cigarro. Acende um, deixar virar cinza, joga fora, pega o próximo. Há muita gente que pensa que gente é descartável. Muitos homens ainda escolhem sua companheira pela ausência de celulite na bunda e não pela presença de espírito. Muitas mulheres ainda escolhem seus homens pela capacidade de seus bolsos. Vai ver é por isso que estou solteiro.
Mas felizmente, há alguns de nós que sabem que a beleza é temporária e procura numa mulher muito mais que um par de seios firmes. Não posso afirmar que sejamos maioria, mas há muitos que têm admiração (e tesão) por mulheres modernas, batalhadoras, seguras de si e cheias de opinião, o que não é desculpa para não se preocupar com sua feminilidade, não querer perder os quilinhos a mais (mesmo que fique só no plano teórico), não fazer mãos, pés e se depilar de vez em quando.
Às vezes me flagro imaginando uma mulher hipotética que descreva assim o homem dos seus sonhos:
“Gostaria que ele fosse bem-sucedido na carreira, mas se estiver desempregado também não tem problema. Melhor alguém que sonhe em construir sua estabilidade financeira a dois que o luxo e conforto de um bem-nascido. Pouco importa de onde ele vem e o que ele já conquistou, ele só precisa de ambição, força de vontade e brilho nos olhos.
Quero que ele se interesse por outros países, outras culturas e outras línguas. Não precisa ser poliglota, nem ter viajado muito, mas deve estar aberto a desbravar os quatro cantos do mundo na minha companhia. Ainda não conheço toda a Europa, nem nada da Ásia. Cuidar dos filhos, ajudar nas tarefas de casa e não depender da mãe pra nenhuma das tarefas anteriores também é essencial.
Ele deve frequentar academia e ler muitos livros pra manter o mente e corpo saudável. Se tiver problemas de ereção por conta do stress, não tem problema. Também não precisa ter tanquinho, porque não dá pra fazer dieta em casa todo dia e nunca me levar pra jantar fora.
Acima de tudo ele deve cultivar suas amizades: afinal, o que será de um homem sem amigos, sem futebol e sem cerveja?”
Pois é. Você conhece alguma mulher com esse discurso? Eu não.
É muito louco e contraditório tudo isso. Sofremos um misto de cobrança e necessidade de provação constante. É muita pressão por resultado envolvida. Família, trabalho, dinheiro, filhos, corpo, mente, tanquinho, sexo. Carregamos conosco a necessidade de nos tornarmos esse príncipe encantado que as mulheres imaginam que exista, só que este homem ideal está mais para super-homem que para um mero mortal.
O sucesso dessa nova incrível geração de mulheres é também seu próprio calvário. Enquanto elas alcançam mais e mais conquistas profissionais e pessoais, os homens vão ficando para trás e perdendo valor para elas. Elas não se contentam mais com pouco. Com homens mesquinhos, machistas, que pensam pequeno ou que não sejam alguém de respeito na vida. E estão certas.
A mulher moderna é mais seletiva. Com toda essa (r)evolução, não é qualquer “zé mané” que pode conquistá-la e por inúmeras vezes, ela vai dar com a cara na parede saindo com um idiota atrás do outro. Um não é inteligente o suficiente, o outro não é tão antenado quanto ela – que lê notícias diariamente, o terceiro não sabe inglês e nunca saiu do Brasil. O problema é que enquanto o referencial dela for a geração de sua mãe e tias que se casaram cedo e viraram ótimas esposas-donas-de-casa, ela se frustrará.
O fato é: o quanto você está disposta a abdicar da sua vida corrida para entrar de cabeça num relacionamento a dois? Quem é seu homem ideal? Você é firme o bastante para amar um homem que falha? Qual mulher foi criada para aceitar um homem com suas fragilidades?
Ruth, não desista de procurar seu par porque como você há muitos de nós, cheios de dúvidas.
A gente não é nada do que o inconsciente feminino espera do homem perfeito. E o pior: nos esforçamos pra ser. Que fique claro, alguns de nós estão dispostos a tudo pra agradar vocês. No fim do dia, o que queremos é uma parceira que nos apoie a buscar nossos objetivos, mas entenda nossos fracassos.


Coração de Pai (de José Ruy Gandra)

Num tempo em que só se fala do pós-feminismo, da relação de igualdade entre gêneros, do anti-machismo, do poder das mulheres, da vigilância ao linguajar potencialmente discriminatório entre outras chatices politicamente corretas que vão se nos impondo, a leitura de "Coração de Pai", de José Ruy Gandra é um bálsamo para a paternidade. Um relato de arrepiar o profundo drama da alma de um pai preocupado com o destino de seus filhos.
Zé Ruy é amigo de muitos anos reencontrado há pouco e redescoberto nesta obra corajosa, aberta e de uma sensibilidade ímpar. Aqui ele fala da paternidade de forma escancarada e sem proselitismo, com ênfase nas pequenas coisas, na descoberta do seu particular "Deus das pequenas coisas", que de fato é o que interessa na vida. Suas histórias, reflexões e preocupações com a educação de seus filhos transparece nessa obra em que ele nos conta em preciosas gotas que descrevem o que todos nós, pais, sentimos com relação aos nossos filhos. Preocupações de pais de uma geração em que o feminismo transformou o papel masculino num problema de menor ou nenhuma importância.
Após passar pela pior tragédia que um pai pode passar, aquela contra a ordem e a natureza das coisas, que é a perda de um filho, o jornalista, historiador (e agora filósofo) Zé Ruy ainda tem a coragem de expor sua "dor sem remédio", seu coração sangrando na procura de sentido para a vida. A procura por que passam todos os pais.
Zé Ruy tem estilo, cultura e uma prosa deliciosa em que vai destilando em sínteses inteligentes esse fenômeno tão pouco comentado em nossos dias: a paternidade. E resgata a real dimensão e a nobreza do papel de pai.

domingo, 15 de junho de 2014

O Réu e o Rei, de Paulo Cesar de Araújo

O Réu e o Rei, de Paulo Cesar de Araújo

Nos últimos anos tenho sido leitor voraz de biografias. Talvez para entender minha própria, sei lá. Encontrei, no gênero, uma fonte de prazer e informação bastante proveitosa. E as biografias têm sido escritas cada vez com mais arte, gênio e cuidado. Rui Castro, Fernando Moraes, Lira Neto, são mestres do ofício que nos encantam com seus textos. Além de pesquisadores minuciosos, produzem obras magníficas. São portanto dois os prazeres básicos das biografias: o do conteúdo e o da forma como foram escritas. Confesso que a forma muitas vezes me atrai mais do que o personagem biografado. Alguém já leu a biografia do Paulo Coelho? Nada mais insosso. A cara dele, dos textos dele, dos profundamente medíocres "pensamentos" do igualmente medíocre, porém famoso, personagem. Só teve graça mesmo o texto do Fernando Moraes. E olhe lá.

Eu já tinha lido o livro "Roberto Carlos em Detalhes", de Paulo Cesar de Araújo, que veio a ser objeto de mais de um processo judicial movido pelo Rei contra o seu maior fã. Sim, pois não há outro fã de Roberto mais aficionado do que Paulo Cesar de Araújo. Tive curiosidade em conhecer a história do cantor do qual também me tornei fã, superando meu preconceito contra ele, tardiamente. Um livro bem escrito. Quase chapa branca. Um livro em que claramente o biógrafo se mostra um fervoroso e apaixonado admirador do biografado.

Tive curiosidade em conhecer a vida de Roberto Carlos para entender como é a vida de um cara que é prisioneiro da própria fama, um presidiário do sucesso. Tenho muita compaixão por essas celebridades longevas que se tornam verdadeiros sacerdotes da fama e que pagam por isso um preço caro: perdem a liberdade de ir e vir, de fazer o que querem, de errar e, sobretudo, o da privacidade. É uma escolha que fazem e certamente sofrem as consequências disso.

Fiquei estarrecido com a notícia do processo movido contra o autor por Roberto Carlos. À época, e sendo do ramo, pensei comigo: "está aí um caso em que advogaria pro bono para o Paulo Cesar". Só pela causa da liberdade de expressão, tema que me é caríssimo. Pois bem. Após o desastroso acordo feito, a obra foi recolhida e incinerada. Mas passou a circular anonimamente pela internet, em forma virtual, o que tornou sem efeito todo o esforço do Rei para tirar de circulação sua história.

Como o recém lançado "O Réu e o Rei", Paulo Cesar de Araújo conta a história do processo, a própria e aproveita para recontar, de outra forma, a história de Roberto Carlos. Bela sacada. Muito bem escrito, elegantemente elaborado, deixa o Rei no seu adequado e corretíssimo lugar neste capítulo de sua história: o de ridículo.


sábado, 14 de junho de 2014

Tempestades

Tempestades

Tempestades são assim, varrem tudo o que encontram pela frente. Dentro de nós, lavam nossa alma e, com ela, nossas certezas, nossos pontos de apoio, nossas ancoragens. Nossa bússola vira pomba gira, nosso contador perde a conta.

Ninguém sabe ao certo o que se passa dentro de nós. Nem nós mesmos. Ninguém sabe ao certo o que sentimos, onde sentimos, como sentimos e quanto sentimos. Ninguém sabe o que vemos, cremos e temos por dentro, o que guardamos de cada tempo, de cada toque, de cada gesto, de cada palavra, olhar, movimento. Ninguém sabe das tempestades que abrigamos dentro dos nossos corações, das nossas emoções, nossas comoções e nossas visões. São tempestades que destroem, lavam, varrem, movem, tremem, deslocam pedaços enormes de antigos nós.

Ninguém sabe ao certo do vulcão que explode esse magma que ao sair, sai estourando, borbulhando, aos vômitos, aos soluços, aos berros, aos prantos, às gargalhadas, às porradas.

Quanto sofrimento para atravessar esse tempo de tempestade, de lava, de cinza, de lama. Tempo cinzento, frio, viscoso e chuviscoso; tempo de raios, ventos e trovões que tudo mexe e remexe. Um tempo de perda, de esvaimento, de desperdício, de alegria que parte, de angústia que chega; até chegar a um estado triste e melancólico de calmaria sem rumo.

Tempo ruim. E não há outro jeito, não há outra forma nem opção. Sem tempestade não há bonança. Sem rompimento não há refazimento. Que forças  da natureza são estas que demoram tanto para acalmar, para amainar, para dar enfim lugar ao renascer, reconstruir, alvorecer, florescer.


O que se escreve não se diz

O que se escreve não se diz

Então é assim. Não se diz o que se escreve. Vive-se este aparente paradoxo. Escrevemos para dizer, mas não dizemos o que escrevemos. E vice versa. Há coisas que dizemos que não escrevemos; por não termos certeza, por não termos pensado, por que sai de qualquer jeito ou para não deixar registro. Seja lá qual for a razão.

Comigo assim se passa: escrevo o que não digo. Digo na escrita o que não consigo dizer de outra forma. Porque de outra forma digo mal, digo pior, digo torto, digo errado. Invejo o artista plástico (e mais ainda o músico), que dizem de outra forma, dizem noutra língua. Eu digo e corrijo, refaço, rescrevo, redigo, até parecer que está perto da penúltima versão do que quero dizer. E continuo insatisfeito por não tê-lo dito melhor. Quero voltar a todo momento e redizer. É mais do que solitário o ato de escrever, é inseguro, egoísta, muitas vezes paranoico e isolado do mundo externo. Escrever evita a expressão daquele que te ouve, te olha ou te contempla, do efeito que causa no outro. Escreve-se para si mesmo, enfim. Mas com a paradoxal esperança de ser ouvido, entendido, compreendido. E, porque não, visto. 

Não importa muito como o outro leu, interpretou, compreendeu. Cada um entende como pode a sua leitura, conforme o seu próprio contexto, sua cultura, sua história de vida, suas sinapses, suas carências, "nóias" e "neuras". É difícil explicar ao outro esse universo interno que se expressa na forma escrita, esse processo de aperto, de espremer a fruta até o caroço, da busca interior de um relato, uma história, uma estória ou uma rima que, se não sai da cabeça, se dissipa, se dissolve, desaparece, vira nada. Então se escreve e se conta o caso. Dá-se espaço a esta necessidade de expressar visões, sentimentos e emoções que nos tomam por dentro e que não querem mais ficar ali, precisam de espaço, pedem passagem. E aí procuram vida no texto, no dito, no não dito, no maldito, no mau dito (ou porcamente) dito. O que mais importa se é isso mesmo, expressar, simplesmente expressar. Dizer.

Até que uma hora uma figura se projeta, um desenho aparece, uma forma toma corpo e uma história se relate. Se ela tocar em alguma corda interna, muito que bem. Se ela tocar numa corda do outro, melhor ainda. Se não, fica ali mesmo, sozinha, em seu canto, seu recanto, sua caixinha fechada.

A coragem de romper

A coragem de romper

Para romper é preciso coragem. Seja lá com o que for que se rompa, seja lá com quem for que se rompa. Tenho a maior admiração por aqueles que rompem; com situações que já não mais persistem, que já não mais subsistem, muitas vezes nem mais existem. Estas pessoas são corajosas, admiráveis, ultrapassam um obstáculo interno muitas vezes mais importante que todos os externos juntos. Mais brava ainda é essa pessoa que rompe com o cômodo, com o tonto, com o hipócrita, com a zona do confortável. Para romper é preciso que o espinho tenha infectado, que o furúnculo esteja maduro, que a bexiga esteja tão cheia a ponto de estourar.

Há os que rompem por falta de amor. Outros, por excesso. Há os que rompem por se terem perdido de si mesmos, outros, por se terem achado. Há os que rompem por explosão, outros por decisão. Há de um tudo. Há de um todo. Nesse mundo velho sem porteira, romper é parte da vida. É rompendo a placenta que o bebê nasce, é rompendo com a infância que o adolescente aparece, é rompendo com a juventude que surge o adulto e deste, o maduro.

É rompendo com o que morre dentro de si que se renasce. Romper, assim, é reaparecer. É reconstruir, refazer, recompor, redispor, rediscutir, repropor.

Admiro quem rompe. E só posso torcer para quem teve a coragem de romper: que reencontre, reerga, reconstrua, refaça, reveja, renasça, reviva.









domingo, 8 de junho de 2014

A saudade e o silêncio

Sempre achei que a saudade fosse apenas um grande vazio. 
Não é. A saudade é uma sufocante presença. 
A presença imensa da ausência. 
Traz com ela um silêncio que ensurdece e entristece. 
De luz que se esvai, de um tempo que anoitece..
Um silêncio crepuscular que lhe toma o lugar.
Lugar onde tece o que assim acontece.

Muito bem. 

Aí encontro esse pedaço de Drummond. 
E me calo, claro.

Ausência
     Drummond
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Sentidos do silêncio

Sentidos do silêncio

A palavra é de prata e o silêncio é de ouro, diz o ditado. É mais sábio calar que falar; é mais esperto ouvir que manifestar. É mais seguro apenas pensar. 

As palavras são mesmo atabalhoadas, desengonçadas, degringoladas. São imprecisas e raramente traduzem bem nossas emoções. Vale mais ouvir que falar.

Além de sábio, o silêncio pode ser um poderoso aliado. E também mordaz. Irritante, frustrante, provocante ou arrogante, o silêncio é, por vezes, um dolorido sinal de malquerença, um torturante testemunho da indiferença ou da saudade, ausência da presença. 

O silêncio não é unívoco. Pode ser defesa, pode ser esconderijo. Pode ser a face do menosprezo ou a escaramuça, o disfarce, a dissimulação, as marcas da desconfiança.

No amor, o silêncio é uma tragédia ou é resultado dela. O amor suporta mal o silêncio. Amor requer atitude, postura e expressão. 

O amor quer que se diga sempre, mostre sempre, gesticule, olhe, alise, acaricie. Se for o caso sussurre, gema, grite, escreva na areia, no ar ou no papel; se der, cante, declame, minta, exagere, bata na cara. 

Só não fique em silêncio. 

Deixe o silêncio para os mortos.

domingo, 20 de abril de 2014

Toto: uma resposta da tecnologia às nossas necessidades básicas

     Você conhece o Toto? Pois é, eu também não o conhecia até chegar ao Japão e descobrir essa novidade espantosa. Coisa de uma civilização avançadíssima. Escreve-se Toto mesmo, sem acento em nenhum "o". Tenho a impressão que os japoneses pronuciam "Tôto" -  a conferir. No Brasil, certamente viraria Totó.

    Fico aparvalhado com o quanto o avanço tecnológico pode nos surpreender e com que velocidade. As consequências acabam por afetar as nossas vidas no que nelas há de mais íntimo e recatado.

     Vou direto ao assunto: Toto é uma surpreendente e revolucionária privada. Essa mesmo, a peça de banheiro que também chamamos de vaso sanitário, o velho "troninho" da nossa infância.

     Ao adentrar num banheiro tecnologicamente avançado, Toto apresenta-se a você sem rodeios. Visualmente, lembra uma privada, meio gordinha, é verdade. Mas é outra entidade, com várias funções acopladas. A primeira delas é o aquecimento do assento. Sente-se nesta nova maravilha tecnológica e sinta como é quentinho o seu assento, a ponto de você ter a nítida impressão de que alguém acabou de sair dali. Mas não, é que Toto simplesmente o surpreende com esse inesperado e aconchegante calor. Acabou-se a sensação de geladinho da tampa ao sentar-se no trono. Uma vez instalado e calorosamente acolhido, você se dará conta de que ao alcance da sua mão direita há um painel com diversos botões digitais. Ali você descobrirá as funções de ligar e desligar, aumentar ou diminuir a temperatura do assento e, pasme, a função bidê ou chuveirinho, escolha entre os dois. Inacreditável! Ao apertar uma dessa opções (bidê ou chuveirinho), o que supostamente você fará uma vez terminado o seu chamado da natureza, surge milagrosamente um pequeno e discreto braço embaixo do assento que lhe espirra água morna no rabo. Não se assuste, ele não o seviciará nem o submeterá a uma desconcertante situação. E você perceberá, olhando o painel, que poderá controlar tanto a temperatura como a pressão da água que lhe é dirigida  - respeitosamente, é claro - às partes baixas. A diferença entre as funções bidê e chuveirinho não parecem muito claras; é preciso um pouco mais de experiência e intimidade para afirmar. Talvez seja um ponto em desenvolvimento para a próxima geração de Totos.

       Para coroar os trabalhos, Toto lhe oferece outra revolucionária função: a de "secador". Apertando o respectivo botão no painel, um enérgico sopro de ar morno dirige-se às suas nádegas, evitando assim o incômodo de ter-se de secar a bunda com papel após o usufruto de tantos banhos de assento.

      Depois de ser apresentado ao Toto, você nunca mais será o mesmo; não viverá mais sem ele. O ato de ir ao banheiro para desincumbir-se das nossas pré-históricas necessidades biológicas deixará de ser um daqueles atos que nos lembram que pertencemos ao mundo animal. Passará a ser um momento de conforto, de acolhimento, talvez de compensação de carências afetivas e, quiçá, um poderoso aliado aos anti-depressivos tão em voga. 

     Portanto, basta de chamar a ida ao toalete de "castigar a porcelana", "conferenciar com o Almirante Barroso" e outras do gênero. Doravante, esse ato solene e inescapável de todos nós passará a ser um momento de distanciado conforto, relaxamento e prazer. Esse momento que nos faz pensar na vida, refletir sobre os acontecimentos, certamente mudará de patamar na cultura da humanidade.


sábado, 29 de março de 2014

Uma carta de amor

Meu Amor,

Escrevo-lhe esta cartinha depois de um dia atribulado. Mando notícia do lado de cá do oceano, esperando que esta a encontre, como de hábito, bonita, elegante, discretamente exuberante.
Imaginei outro dia a hipótese de perdê-la. Vivi, por um instante, a perspectiva de não a ter mais na minha vida. Não contar mais com a sua presença nos meus dias, não ouvir mais o seu bom-dia, não sentir mais as emoções de seu espírito aceso e sua alma exigente; não ter mais o desafio de enfrentar e compreender suas contradições femininas, seus humores, suas alegrias e tristezas. Gelou-me sobretudo a possibilidade não deitar mais meus olhos nos seus, ouvir sua voz, sentir seu cheiro e perder nossos encontros, furtados desse cotidiano tão tedioso. Um tempo parênteses, tempo aspas, tempo mágico, suspenso da vida e apartado do mundo. Um tempo só nosso.
Imaginei, horrorizado, minha vida sem você. Uma vida com o coração em frangalhos, pranteando a sua ausência, procurando coragem para enfrentar uma batalha perdida, solitária. Pensei na possibilidade de viver bem sem você. Afinal, não nasci enamorado por você, apesar de achar que vou morrer neste estado de prostração apaixonada. 
Lembrei então que você entrou na minha vida como um pé de vento, devagarinho, como quem não quer nada - instalou-se e bagunçou tudo. Começou dando-me uma atenção que eu não conhecia, enfeitiçou-me. Fomos conversando sobre nossas vidas e vi-me encantado com a sua. Fui me apegando a você aos poucos, ao fato de você, outrora contida e fechada, ter me aberto aos poucos frestas e cantos. Quando dei por mim, galopava em emoções, completa e perdidamente apaixonado.
Você desbravou um vasto latifúndio no meu pobre coração.
Percebi então que ao não tê-la mais em minha vida, dela só restariam estilhaços espalhados pelo chão, pelos cantos, pelos ralos. Pedaços a serem juntados e recompostos talvez, quem sabe, um dia. Até lá, encarnaria o personagem da música de fossa da Maísa, para quem o mundo caiu.
Que alívio não ter se desfeito esse nosso mundo suspenso no tempo e no espaço.

"Para terminar, 
Amor assinarei, 
do sempre, sempre teu,


Erasmo"
...........................................
Todas as cartas de amor…
                                 Fernando Pessoa

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)



sábado, 22 de março de 2014

Acredite se quiser

Acredite se quiser

Depois de anos objeto de uma paixão dedicada, leal, fiel, declarada e, sobretudo, devota - uma devoção renitente, consistente, cozida em fogo lento -, Mariana indaga, sentada, tomando o picolé de coco que ele lhe havia comprado:

- Afinal, Bento, o que você quer de mim?

Ele pensou bem, acreditou naquela oportunidade única de conquistá-la finalmente, agora pelo poder da palavra, da poesia, acreditou naquele momento que poderia ser de arrebatamento do coração da moça e tirou do bolso seu poeminha num papel dobrado, escrito há tempos. E declamou, poeticamente:

"Eu quero o seu riso e o seu choro,
Quero suas alegrias e suas tristezas,
Quero ver em seus olhos doces a sua paixão, 
Quero os seus beijos, seus cheiros, seus toques, seus choques; 
Só não quero o grande amor que nunca tive"

Disse isso com os olhos rasos, a emoção espremida vinda do fundo da alma e ouve de Mariana, em tom de consolo:

- É normal que você sinta isso, Bento. As pessoas apaixonadas se sentem assim, mesmo... 

Foi o que ela disse, com estas palavras, acredite se quiser. 

E o disse sem corar, sem brincar, habituada ao conforto da fiel devoção de Bento. Num repente furioso com aquele desdém que achou o cúmulo, Bento apertou-lhe violentamente o pescoço, até ouvir um estalo. Saiu dali caminhando leve, deixando Mariana com a cabeça caída para o lado, o picolé derretendo em suas mãos, pingando na saia, sentadinha imóvel naquele banco da praça da cidadezinha do interior, num fim de tarde preguiçoso de domingo.


Acredite se quiser.