sábado, 22 de março de 2014

Acredite se quiser

Acredite se quiser

Depois de anos objeto de uma paixão dedicada, leal, fiel, declarada e, sobretudo, devota - uma devoção renitente, consistente, cozida em fogo lento -, Mariana indaga, sentada, tomando o picolé de coco que ele lhe havia comprado:

- Afinal, Bento, o que você quer de mim?

Ele pensou bem, acreditou naquela oportunidade única de conquistá-la finalmente, agora pelo poder da palavra, da poesia, acreditou naquele momento que poderia ser de arrebatamento do coração da moça e tirou do bolso seu poeminha num papel dobrado, escrito há tempos. E declamou, poeticamente:

"Eu quero o seu riso e o seu choro,
Quero suas alegrias e suas tristezas,
Quero ver em seus olhos doces a sua paixão, 
Quero os seus beijos, seus cheiros, seus toques, seus choques; 
Só não quero o grande amor que nunca tive"

Disse isso com os olhos rasos, a emoção espremida vinda do fundo da alma e ouve de Mariana, em tom de consolo:

- É normal que você sinta isso, Bento. As pessoas apaixonadas se sentem assim, mesmo... 

Foi o que ela disse, com estas palavras, acredite se quiser. 

E o disse sem corar, sem brincar, habituada ao conforto da fiel devoção de Bento. Num repente furioso com aquele desdém que achou o cúmulo, Bento apertou-lhe violentamente o pescoço, até ouvir um estalo. Saiu dali caminhando leve, deixando Mariana com a cabeça caída para o lado, o picolé derretendo em suas mãos, pingando na saia, sentadinha imóvel naquele banco da praça da cidadezinha do interior, num fim de tarde preguiçoso de domingo.


Acredite se quiser.





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