Acredite se quiser
Depois de anos objeto de uma paixão dedicada, leal, fiel, declarada e, sobretudo, devota - uma devoção renitente, consistente, cozida em fogo lento -, Mariana indaga, sentada, tomando o picolé de coco que ele lhe havia comprado:
- Afinal, Bento, o que você quer de mim?
Ele pensou bem, acreditou naquela oportunidade única de conquistá-la finalmente, agora pelo poder da palavra, da poesia, acreditou naquele momento que poderia ser de arrebatamento do coração da moça e tirou do bolso seu poeminha num papel dobrado, escrito há tempos. E declamou, poeticamente:
"Eu quero o seu riso e o seu choro,
Quero suas alegrias e suas tristezas,
Quero ver em seus olhos doces a sua paixão,
Quero os seus beijos, seus cheiros, seus toques, seus choques;
Só não quero o grande amor que nunca tive"
Disse isso com os olhos rasos, a emoção espremida vinda do fundo da alma e ouve de Mariana, em tom de consolo:
- É normal que você sinta isso, Bento. As pessoas apaixonadas se sentem assim, mesmo...
Foi o que ela disse, com estas palavras, acredite se quiser.
Foi o que ela disse, com estas palavras, acredite se quiser.
E o disse sem corar, sem brincar, habituada ao conforto da fiel devoção de Bento. Num repente furioso com aquele desdém que achou o cúmulo, Bento apertou-lhe violentamente o pescoço, até ouvir um estalo. Saiu dali caminhando leve, deixando Mariana com a cabeça caída para o lado, o picolé derretendo em suas mãos, pingando na saia, sentadinha imóvel naquele banco da praça da cidadezinha do interior, num fim de tarde preguiçoso de domingo.
Acredite se quiser.
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