domingo, 16 de março de 2014

Enorme decepção

Eu a entrevi no ônibus, a caminho da faculdade. Subiu duas paradas após a minha. O ônibus lotado, o calor da manhã apenas começando. Só a vi de relance e curioso fiquei para saber como ela era. O brilho e a cor do seus abundantes cabelos levemente cacheados chamaram minha atenção. Um castanho claro acobreado, com mechas arruivadas, num corte reto batendo um palmo acima da cintura. Lindos cabelos. Só faltava ser bonita também, pensei. Mas não consegui ver seu rosto até descermos juntos no ponto da faculdade, que fervilhava com a volta às aulas naquele verão. Ali percebi que era realmente bonita. Faltava checar detalhes: o sorriso, os dentes, as orelhas, mas o conjunto, de longe, agradava. Não tinha a beleza explosiva das loiras nem a agressiva das morenas. Era uma beleza discreta, harmoniosa, que não forçava passagem, passava apenas. A pele, muito branca com sardas claras, formava uma estampa delicadamente rendada. 

Vestia uma calça jeans e uma camisa azul larga, por cima da calça, não permitindo ver seus contornos com nitidez. Parecia mais para o "cheinha". Os olhos eram amarelo-claros, grandes e lindos. Fui seguindo-a, enfeitiçado pelo balanço do quadril e do movimento dos cabelos enquanto andava. Tínhamos uns 5 minutos de caminhada nos corredores antes de chegar às classes e aproveitei cada um deles na caminhada. Apaixonei-me pela ruivinha de imediato. Não sabia qual o seu curso, só faltava ser uma nova colega de classe! Mas não, desviou-se para a rampa da pedagogia; continuei em direção à minha classe. 

No intervalo das 10.20h, desci à cafeteria apressado, procurando-a com sofreguidão. Aquilo fervilhava de gente. Era impossível achar alguém ali. Pedi ao caixa um expresso e um pão de queijo e, após 10 minutos de espera na fila, fui disputar um atendente com uma turba de estudantes esfomeados e afllitos. Um calor insuportável, uma gritaria ensurdecedora. Quando dou por mim, estou ao lado dela. Era uns 30 centímetros mais baixa do que eu. Dava pulinhos, agastada, tentando ser vista por algum atendente. Não pensei duas vezes e ofereci-me, sorrindo: "quer que eu peça o seu pedido junto com o meu?". De início olhou-me um pouco assustada, mas tomada pela cumplicidade juvenil e até um pouco aliviada, passou-me o seu ticket dizendo:

- Ai! Obrigada, quero sim, isso aqui está impossível para uma baixinha como eu. Eu queria um suco de pêssego e um sanduíche natural, por favor. 

Meu coração disparou, fantasiando grandes possibilidades vindas daquele golpe de sorte. Disse-lhe para esperar na mureta que eu levaria tudo a ela. Excitado com a oportunidade e cheio da energia que só o amor pode dar, virei um leão naquele balcão e gritei o pedido com tal força que o atendente parou e olhou-me assustado. Enfiei os pedidos em sua mão com uma nota de 5 Reais e ele serviu-me logo em seguida, entregando-me dois sacos brancos de papel com o sanduíche dela, meu pão de queijo e a latinha de suco.

Dirigi-me à mureta onde aquela ruivinha linda estava e entreguei-lhe seu sanduíche e a lata de suco. Ela sorriu-me lindamente, agradecendo a gentileza. Pôs tudo em cima da mureta e, com as mãozinhas pequenas levantou aqueles cabelos maravilhosos, prendendo-os num rabo de cavalo. Então reparei nas suas orelhas - enormes, desproporcionais, daquelas de açougueiro italiano. Ainda por cima, de abano, coitadinha. Tive um baque sério. Quase tropecei. Fiquei sem graça e despedi-me apressadamente, tomando o rumo da minha classe com meu pão de queijo morno no saquinho, frustrado, macambúzio, desgraçado. 

"Putz!" disse em voz baixa, "era tão bonitinha..."





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