Abril de 2011
Após uma série de sustos e percalços um tanto sérios na vida, resolvi propor - à minha mulher e a mim mesmo - uma temporada de afastamento em algum lugar. Um período sabático de uns 12 meses, pensei, seria ideal. Estava "à bout", como dizem os franceses. Esgotado, sem rumo, com a bússola interna parecendo uma pomba gira. Sentia-me levado pelos acontecimentos e empurrando a vida com a barriga que, aliás, andava bem inchada e em ritmo de crescimento acelerado.
Após uma série de sustos e percalços um tanto sérios na vida, resolvi propor - à minha mulher e a mim mesmo - uma temporada de afastamento em algum lugar. Um período sabático de uns 12 meses, pensei, seria ideal. Estava "à bout", como dizem os franceses. Esgotado, sem rumo, com a bússola interna parecendo uma pomba gira. Sentia-me levado pelos acontecimentos e empurrando a vida com a barriga que, aliás, andava bem inchada e em ritmo de crescimento acelerado.
Pensei em vários destinos para justificar o afastamento desse mundinho nosso de cada dia: um curso em Harvard, um período na Provence ou mesmo uma temporada em Paris, onde minha mulher, sofisticada Chef nas horas vagas, faria o curso do Cordon Bleu, seu sonho de consumo. Curioso de cozinha, eu filaria algumas aulas e procuraria algo que me interessasse, como um bom curso de vinhos ou de política ou de filosofia.
Planejada inicialmente para um ano, a viagem foi sendo reduzida paulatinamente até chegar 3 meses que viraram 10 semanas. Foi o que pude fazer. Quem tem coragem para se afastar de seu próprio escritório durante um longo período? Como disse um amigo, um longo sabático tende a implodir algumas pontes... Não era bem essa a minha intenção.
Ainda duvidando do acerto da decisão, decidi arriscar. Eu precisava de um tempo para repensar a vida e isso me parecia urgente. Precisava me afastar do meu dia a dia. E fui prontamente apoiado pelos meus principais "stakeholders": minha mulher e meu principal sócio.
A escolha do local e do que fazer foi sendo pensada, refletida e questionada. Continuei procurando algo interessante em Harvard e pensando na querida França, onde tinha morado 4 anos. Opções confortáveis do ponto de vista de justificativa à corte e a mim mesmo. Mas havia algo em ambos os destinos que não me caía bem e eu não sabia dizer o que era. Lembrei que alguns meses antes, tínhamos passado uns dias em Londres, cidade de péssima lembrança minha. Fomos lá por insistência do meu querido irmão que convidou-me a revisitar um preconceito que eu tinha com a cidade. Por lá ele e eu havíamos passado uma temporada de uns 30 dias, no verão de 1978, para um curso intensivo de inglês. O tenebroso inverno em Londres deixou péssimas lembranças no estudante duro. Guardei na memória uma cidade escura, acinzentada, fria, úmida, dura e onde se comia muito mal. Os dias clareavam depois das 9 da manhã e escureciam antes das 4.30 da tarde. Como ficávamos fechados o dia inteiro na escola, só víamos a luz do dia quando saíamos para almoçar nos pubs próximos, onde experimentei a famosa "kidney pie". Ali cortei definitivamente relações com a culinária inglesa. Em resumo, um horror.
Nessa visita mais recente, tudo estava diferente e percebi que meu irmão tinha toda razão: conheci outra Londres: limpa, agradável, com uma vida cultural pujante e uma série de ótimos restaurantes, além dos museus, da cultura de uma educação cerimoniosa que revela um venerado respeito ao outro. Nada disso batia com a memória juvenil do estudante que passou frio e fome ali. Enamorei-me da cidade. A idéia de instalarmo-nos naquela cidade atraiu-me justamente por não ter nenhuma raiz ali, o que me distanciaria ainda mais do meu caldeirão de demandas, expectativas, frustrações e estresse.
E o que fazer em Londres? Foi aí que, antes mesmo da partida, percebi um resultado positivo da minha decisão relativa ao período sabático. Perguntei-me: porque eu precisaria de uma justificativa para afastar-me? Para quem eu teria de me justificar? E dei-me conta que não estava a fim de fazer curso nenhum. Eu estava é esgotado, não queria fazer nada além de afastar-me e deixar correr o tempo para pensar na vida. E justamente essa obrigação de justificar-me é que estava me incomodando nas opções Harvard e Paris. Não eram opções autênticas; eram uma desculpa esfarrapada que me gerariam um sacrifício desnecessário. Eu não precisava de justificativa, sobretudo para mim mesmo. E assumi: vou bundar com o Frederico, vou fazer o que me der na telha - lá vejo o que há para fazer. E se não me der bem em Londres, mudo para Paris, que fica a 2 horas de trem dali ou outro lugar qualquer. Senti-me livre e esta sensação agradou-me. E assim alugamos um flat ótimo, na Sloane Avenue, em Chelsea - maravilhosa localização a um preço razoável (nosso Real à época estava fortíssimo). Ou seja, tudo conspirou para que desse certo.
Fomos assim com o só propósito de passar os dias em Londres. Livres. Vagueando pela cidade e por nós mesmos. Um amigo perguntou-me: mas você vai levar a sua mulher?? Ao que eu prontamente respondi: lógico, até onde sei não vem dela a crise que enfrentava. A crise poderia até afetar o relacionamento do casal, mas o casal não era o epicentro da mesma. Pelo contrário, minha mulher tem sido uma grande companheira de vida e passava, de seu lado, por suas próprias crises, naturais das fases femininas e perrengues da vida que tinha vivenciado ultimamente. Estávamos na beira de enfrentar a tal da "síndrome do ninho vazio", na medida em que nossos filhos planejavam sair definitivamente de casa.
Em Londres tivemos uma vida de bairro, fazíamos as compras no mercadinho em frente ao flat, mandávamos lavar as roupas na lavanderia também em frente, preparávamos as próprias refeições, e vivíamos um dia de cada vez, da maneira que nos aprouvesse. Com muitas permissões, que os ingleses chamam de "indulgencies".
Não é muito chato não fazer nada? Não ter programação? Talvez para alguns seja um pesadelo. No nosso caso, o programa era justamente não ter programação, deixar correr os dias, viver o dia a dia, ver o tempo passar, fazer o que desse vontade, aproveitar as oportunidades dos dias corridos.
Não fui a Londres procurar nada especificamente. Eu só queria um tempo, uma distância, olhar o todo de uma nova perspectiva. Viria o que viesse. Eu não estava à cata da luz salvadora nem do mapa do Paraíso. Não fui procurar o caminho dos monges do Tibet, nem uma revelação mística. Não fui procurar Deus. Não programei uma visita aos velhos sábios da India ou do Himalaia. Nem fiz de Londres uma Fátima. Não fiz dali o meu caminho de Santiago.
Claro que de alguma forma eu esperava clarear minha cabeça. Afastar para enxergar melhor. Refocar. Também não posso negar que estava à procura do meu eixo para encontrar a minha própria identidade, confuso que estava com os diversos papéis que vinha desempenhando até então. Papel de pai, de filho, de marido, de advogado, de professor, de membro da sociedade ao meu redor, etc. Onde estava o meu "self" nisso tudo? Qual era aquele que conectava todos os papéis? No correr da vida entregamos um pouco de nós a cada um desses papéis e, após, cada um deles integra-se a nós. Eu a eles emprestei um tanto de mim e deles agreguei outro tanto. Mas tudo andava um pouco misturado, enrolado, de ponta cabeça. Os chacoalhos por que passei me levaram a um questionamento de valores e de direcionamento de vida. Estava com dificuldade em me situar. Vivia uma certa crise de identidade, uma crise que, percebi mais tarde, foi o início da minha passagem da vida adulta à fase mais madura em que me encontro. Foi o que me pareceu, sei lá.
Por outro lado, nossos filhos estavam saindo de casa e um novo dimensionamento da vida do casal se impunha. Um novo olhar, um novo pacto para com a vida que tínhamos diante de nós. É um conhecido clichê essa conversa de que, ao passarmos pela crise da meia idade, precisamos procurar novos desafios, novos projetos, novos objetivos. Qualquer orelha de livro de auto-ajuda tem essa fórmula "secretíssima", essa panacéia universal. E as respostas que surgem imediatamente são outros clichês, mais simplistas ainda. Sugestões pueris, bestas, completamente descontextualizadas. Praticar Iôôga? Colaborar numa ONG? Abrir um restaurante? Trocar a mulher por outra mais nova? Frequentar um curso de história da arte? É sempre fácil a resposta de quem olha de fora e procura racionalizar a vida alheia com a ladainha: "é preciso traçar novos objetivos, novas metas, novos projetos, "nhem nhem nhem", "trá-lá-lá". É resposta pronta, de prateleira. É tão fácil quanto criticar a educação dos filhos do vizinho ou resolver o problema enfrentado pelo casal amigo. De longe, tudo parece óbvio; mas não é.
Só posso falar de mim e digo que comigo as coisas não se passaram dessa maneira. Não foi nada disso. E também não deixou de ser. Primeira coisa: não dá para procurar algo que não se sabe o que é. Não dá para acreditar numa lista mágica de hipóteses feita por algum mestre "savant" do Himalaia ou, pior, algum professor de uma universidade americana. Não dá para se guiar por algum estudo publicado recentemente no Boston Journal of Human Sciences. Isso não se dá dessa forma planejada, racional, objetiva. Do tipo "arranje uma ocupação qualquer e não encha mais o saco". Segunda coisa: ainda que procurasse as saídas acima, no fundo o meu problema não era falta do que fazer. Percebi que o momento que eu vivenciava ali teria de ser enfrentado, encarado, compreendido e assimilado. E o meu reflexo instintivo para encarar o momento foi o de afastar-me: do meu dia a dia, das pessoas, dos problemas, dos caminhos rotineiros que nos aprisionam. Daí a procura de passar um razoável período distante de tudo, permitindo um "deixar vir", venha o que vier. Porque não me dar ao luxo? Mudando de cultura, de língua, de endereço, eu refrescaria e revisitaria minhas impressões, opiniões, valores, etc. Isso talvez me ajudasse a encontrar uma nova perspectiva.
E assim partimos a Londres, para voltar dali a dez semanas. E o que aconteceu? Absolutamente nada. Nenhuma revelação mística, nenhuma luz divina se abateu sobre nós. Nenhum anjo me cochichou um recado divino. Nem um santo me revelou o caminho do paraíso.
Entretanto, com o passar dos dias, com o correr das semanas, nossa perspectiva de tempo foi se alterando. Isso foi precioso. O tempo era nosso, fazíamos o que queríamos, quando queríamos. Não tínhamos compromissos familiares, sociais ou profissionais; não tínhamos horário, não tínhamos qualquer outra obrigação. Não estamos falando aqui de um fim de semana ou de 15 dias de férias - estamos tratando de uma outra medida, bem diferente, de ter à frente de si 10 semanas de liberdade, de ócio. Essa retomada do domínio do tempo nos ajudou a perceber bem melhor o que é e o que não é realmente importante. Para a vida que tínhamos ali e para a nossa vida em geral.
Vivíamos num apartamento de quarto e sala e percebemos que não precisávamos muito mais do que aquilo para viver bem. Com um pouco mais, muito pouco mesmo, poderíamos ter ali todo o conforto que quiséssemos e mais a liberdade de ser e de se locomover sem carregar uma tralha pesada. O passar do tempo e o morar de forma mais simples nos fez chegar mais perto do essencial. E perceber que o essencial é simples. É básico. É funcional. O passar do tempo e a distância nos fez perceber bem mais claramente o quanto nos toma de tempo e energia o preenchimento de obrigações sociais e profissionais absolutamente dispensáveis. O passar do tempo e a simplicidade da vida que ali vivemos nos mostrou o quanto é dispensável ter coisas para ser. Taí outro clichê que se repete com frequência, mas não se experimenta. E reparamos no quanto acumulamos de objetos inúteis, de preocupações inúteis, de ansiedades inúteis, de obrigações inúteis, de gastos inúteis, de consumos inúteis. Aquele passar do tempo, aquela distância e a vivência do essencial nos mostrou isso: quanto mais nos ocupamos do inútil, do dispensável, do acessório, menos tratamos do essencial.
E o essencial é o simples, é o básico, é o fundamental. "O simples é o último estágio da sofisticação", disse Leonardo, o da Vinci. Simples são os amigos, os amores, as risadas, o construir, o dividir, o rir e o chorar. O resto é complicado e, a rigor, secundário.
Resumindo: Londres não revelou-me nenhum segredo místico, nem apontou-me o caminho do Céu ou mostrou-me a luz divina. Londres deixou-me perceber que é preciso estar atento ao essencial, que se deve pensar simples e que resolver as coisas de forma simples é o melhor caminho. Ainda que as coisas sejam complexas.
No fim das contas, Londres me transformou. E muito.
Nenhum comentário:
Postar um comentário