quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Fantasma de autor: a literatice


LITERATICE



                        "Se eu tivesse que dar um conselho, diria aos mais jovens: - não façam literatice.
O brasileiro é fascinado pelo chocalho da palavra."                                         
Nelson Rodrigues


Não me sai da cabeça o conselho de Nelson Rodrigues aos mais jovens: 
- "não façam literatice". 
Confesso aqui o grande fantasma que me ronda: o medo de desagradar o leitor. Tenho verdadeira paúra de fazer "literatice", de incomodar os outros com uma literatura que seja uma chatice. Literatura..., em termos. É palavra emprestada, é "modo de dizer", pois não acho que esses textos esparsos sejam de fato literatura - são ensaios talvez, despretensiosos na sua maioria. Não só os meus, mas a maioria dos textos que se encontra nos blogs hoje. Alguns são muito bons, excepcionais até. Revelam imensos talentos que vão muito além do simples rabisco, do rascunho de pensamentos, do desabafar do que lhes vai à cabeça. O contraponto, porém - e é bom que assim seja -, é que a maioria dos blogs revela esse delicioso exercício da liberdade de expressão: a vontade de contar uma história, de falar sobre um assunto qualquer, de eventualmente fazer ficção, sem pretender necessariamente ombrear Machado de Assis, o mago do texto, o maestro dos pincéis da escrita. A grande arte machadiana de desenhar uma estória com as palavras, frases, parágrafos, formando páginas de pura fantasia. A arte de pincelar nuances, cores, sombras, mundos paralelos e transportar o leitor em uma nave fantástica para uma viagem imaginária a lugares e situações que lhes pareçam ao mesmo tempo novos, inesperados, deslumbrantes e ainda assim familiares. Uma arte mágica, como todas as artes. Não são as artes todas um exercício de magia, de feitiçaria - se preferirem, de bruxaria? 

Mas voltando à pedra do meu sapato, presumo que não sou o único a ser assombrado por este fantasma. Todo aquele que escreve teme o risco de desagradar, de chatear o próximo. Não que seja possível agradar a todos; ninguém consegue agradar a todos o tempo todo - aliás, nem enganar, já dizia Churchill. Por outro lado, desagradar a todos não tem nada de impossível... Sobretudo se esse "todos" seja um universo formado por um pequeno número de pessoas cujo julgamento nos interessa. Sinto-me pretensioso ao escrever textos sem perguntar se alguém os quer ler; por vezes acho ridículo o propósito de querer entreter o leitor, prender sua atenção, divertí-lo ou simplesmente deixá-lo curioso. A sedução do leitor imaginário é um desafio para quem escreve. Um desafio nada desprezível de superação de si mesmo, da implacável auto-crítica castradora. Fomos aculturados para andar de mãos dadas com a humildade e a modéstia, desde sempre. Mas serão a modéstia e a humildade eficientes propulsoras dos motores da criatividade? Parece que não. Não servirão ambas de filtro que restrinja a maravilhosa megalomania criativa, da loucura desenfreada, da ousadia da expressão livre, solta e desimpedida? 

Esta aí o desafio, superar as amarras internas para expressar livremente. Não é pouco.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Reencontro


Em algum momento entre 2009 e 2010


Entrei naquele escritório instalado num palacete do Jardim Europa, sem saber se o reconheceria, fisicamente. Muito menos se reencontraria seu espírito, sua alma. Desde nossa curta conversa ao telefone, na semana anterior, passava e repassava em minha cabeça o que poderia ter-nos separado. Certa vez, minha mulher encontrou-o casualmente no Shopping, na hora do almoço. Trocaram notícias das famílias; ele deu-lhe um cartão e o telefone de casa, para falar com a Lu. Telefonaram-se, almoçaram juntas, atualizaram as fofocas, as biografias respectivas, das famílias, dos filhos.  Ele ligou, brincalhão como sempre, marcando um almoço para a segunda-feira seguinte. Chegada a segunda, resolvi, ao invés de encontrá-lo no restaurante, como combinado, ir buscá-lo no escritório. Ao deixar meu carro no pátio de estacionamento, fui caminhando até a entrada da casa e percebi que, talvez por defesa, não estava com grandes expectativas para aquele encontro. Muito ao contrário. Calejei-me um pouco na vida após alguns reencontros com velhos amigos que, fora boas lembranças de infância, adolescência ou juventude, não tinham mais nada em comum comigo. Perdia-se o grude, não se reconhecia o olhar. Pessoas que não familiarizávamos mais, reencontros só de corpo presente, caricatura do que já foi. Além disso, eu tinha uma mágoa muito grande com o assunto. Mágoa, não sei se é o termo, talvez seja. Afinal, como é que a gente define  a tristeza de perder o grande amigo, o confidente, aquele com quem você divide o sucesso e o fracasso, que não se constrange em dividir as vergonhas, a história pessoal? Eu acho que tive uns três amigos assim, na vida toda. Uns dois na infância, que nunca mais revi, e ele, o último, encontrado tardiamente na faculdade, no terceiro ou quarto ano da PUC, quando passei para o período noturno. Amigos assim, sem razão ou interesse, sem mais explicação, a gente traz da infância ou não acha mais. E o perdi sem entender nada. Sem saber se tinha errado na mão, na conversa ou na falta dela. Não brigamos. De repente, ele não me atendia mais ao telefone. Tentei falar muitas vezes. Numa delas, ele me atendeu meio apressado, telegráfico, e à minha pergunta sobre o que tinha acontecido, sobre nos vermos dia destes, dizia simplesmente “tá complicado”. Mas porque? “Tá complicado em casa”. E eu insistindo. De repente, deixou escapar: “você é um sacana”. E eu: porque? O que houve? Vamos conversar! Vamos tomar um uísque. Vamos a um bar. E ele: “não dá, tá complicado”. Telefonei ainda várias vezes e nada. Sem contato. É como lembro. Deixei correr, então, respeitando a decisão do amigo e dizendo a mim mesmo que quando desse, ele me ligaria. Ou a gente se cruzaria. Aconteceu alguma merda, mas uma hora a gente senta e conversa. E a vida correu, de fato, cheia de novidades. Estávamos no final de 1992, início de 1993. Em março de 93, fui nomeado para um cargo público, um dos maiores desafios profissionais da vida, que me obrigou a ter uma vida louca, uma agenda mais ainda. Estava a todo momento nos jornais. Ele não podia ignorar! Apesar disso, nenhuma notícia; nem parabéns, nem votos de sucesso, nem oi. Pensei comigo: o negócio é sério...


O tempo foi passando e eu ficando contrariado com a inexplicável ausência de notícias. Orgulhoso, disse a mim mesmo que após tantos telefonemas meus era ele que tinha de ligar. Fui ficando magoado com a história, indignado com a ausência de explicação, sobretudo com a ausência do amigo. Decepção. Ora, que amizade era aquela, que acabava sem que ele, ao menos, me mandasse tomar no cú? Afinal, tínhamos passado muitos pedaços juntos, sempre juntos. Vimos os filhos nascerem (o filho dele, Zé Paulo, nasceu num dia em que jantávamos na casa da sogra dele, onde eles moravam e, de repente, as contrações – fomos os quatro ao Eisntein, no meu carro). Acompanhamos as idas e vindas dos respectivos casamentos, as crises de família, as incertezas profissionais. Não era uma amizade social, nem de casal. Verdade que os casais eram amigos, mas éramos amigos independentemente do estado de espírito de cada casal ou da proximidade das respectivas esposas que, como todas as mulheres, tinham lá seus temperamentos variando ao sabor dos hormônios de plantão, ou daquelas razões super lógicas delas como um olhar atravessado, um comentário sobre a saia ou sobre o serviço do jantar, sei lá. Essas coisas de mulher que não entenderemos jamais. Já tínhamos sobrevivido a tudo isso. Começamos nossas carreiras juntos, acompanhando cada passo, torcendo pelo outro, discutindo, pentelhando, dando palpite nas decisões, se metendo na vida, procurando ajudar. Difícil entender o que houve.

Ao entrar em sua sala, conduzido pela secretária, encontrei-o de pé e reconheci imediatamente o olhar de cima, maroto, direto no olho. Aquele conhecido sorriso contido e eu, sem saber o que fazer, se o abraçava ou lhe dava um murro no peito, estendi-lhe a mão. Sentamos e logo o papo dele que corria solto, redondo, fácil como sempre, conectou-me imediatamente àquela figura que não via há quase dez anos. Que me olha de lado naquela expressão zombeteira, só sua. Confesso que fiquei meio sem jeito, meio sem graça. Não achei o meu personagem nem o meu discurso e fomos logo almoçar, contando, no caminho, fragmentos de notícias da vida de um e do outro. Íamos cercando os assuntos até chegar ao restaurante do Shopping Iguatemi. E o papo continuava, o dele sempre mais fluente que o meu, como sempre. Foi extraordinário vê-lo assim, neste estado. Falante, sensível, seguro de si, vencedor. É o mesmo, mas também é outro. Agregou valor, sabedoria, sobretudo franqueza. Expõe melhor as idéias, acha as palavras, diz-se mais autêntico. Carrega suas fragilidades e fraquezas como troféus. Teve pânico e outras coisas que não sei. Certamente “terapeutou”. Suas abordagens estão mais amplas, mais profundas, mais “autênticas”, como diz. Foi dando notícias por capítulos curtos: o filho Zé Paulo ocupou um bom espaço da conversa. Falei-lhe um pouco dos meus. A história de nossos escritórios tomou a maior parte do tempo. Compreensível que a gente comece por aí. Não falamos das mulheres e dos casamentos (ainda). Sabedoria nossa. Para isso, temos a vida toda e ainda assim o assunto não acaba. O almoço avançando e eu engasgado com a pergunta: “afinal, o que aconteceu?” Poderia sair dali sem a resposta, como de fato saí. Pouco importa. Mas não sem ter feito a pergunta. Ele me falou de outra coisa, de um desequilíbrio nas amizades, de dedicação dele sem correspondência minha. Que me sentiu fechado quando ele estava aberto, exposto. Esta a razão do afastamento. Confesso que fiquei um pouco chocado com a resposta e lhe disse. Ao que retrucou “você sabe do que eu estou falando”. Vasculhei minha fraca memória para ver se deveria saber do que falava e nada achei. Falei então das distâncias que a vida nos impôs, do tempo da França, dos encontros que passaram a ocorrer sempre no grupo de amigos, dos dias difíceis, das turbulências nos casamentos, da correria do trabalho. Ficamos de nos encontrar na segunda-feira seguinte. Talvez sempre às segundas, quem sabe? 

E me flagro no aguardo da segunda-feira.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Nunca pensei... (intento do Blog - comece por aqui)


Nunca pensei em escrever num Blog, muito menos construir e manter um. Nunca me imaginei publicando textos vindos do nada, só de dentro da cachola. Nunca ousei publicar nada que não fosse uma opinião profissional, racional, ponderada e direcionada. Nunca pensei em expor-me dessa forma: escrita. Nunca achei que tivesse algo interessante a dizer, a contar, a descrever ou a indagar. Nunca pensei que alguém pudesse se interessar pelo que eu tivesse a dizer. 

Sempre gostei de escrever. Da magia de criar e contar uma estória. De vê-la modificar-se, adquirir vida própria, caminhar para um caminho bem diferente do traçado inicialmente. Minha mãe me dizia que eu escrevia muito bem - diz até hoje, a querida. Mas o que vale uma opinião de mãe? Ela se impressionava pelo fato d'eu escrever-lhe cartas quando viajava. Escrever cartas, eu escrevia. Muitas. Todas à mão, em papel seda para diminuir o peso e não custar caro o selo. Postadas no correio, demoravam dias a chegar ao destino. Daquelas que quando se escrevia, se imaginava a cara do destinatário (ou destinatária), surpreso com a chegada da carta, passando pelo "frisson" e a ansiedade em abrir logo o envelope, correr ao quarto e ler com sofreguidão o que ali estava escrito. Na minha adolescência mantive com namoradas que moravam no interior uma rotineira correspondência semanal, às vezes por anos a fio. Cartas de amor, inspiradas pelo espírito do jovem apaixonado, impulsionadas pelos hormônios saltitantes e abundantes da época. Cartas em que se dizia o que não se falava. Às vezes, no embalo, dizia o que nem sentia...

Não revelei ao mundo nenhum talento literário muito especial. Vez por outra me diverti escrevendo emails fantasiosos a amigos, por pura gozação. Se os encontrar, vou postá-los aqui e ver como ficam. Ouve época em minha vida que achava que achava que poderia escrever o que quisesse, tal minha verve fervilhava; sentia disposição de escrever qualquer coisa: romance, ficção, crônica. Poesias não - eram sofríveis. Mas não o fiz. Essencialmente por vergonha, mas também por priorizar meu tempo à minha profissão. Pois é, sou advogado. E advogado escreve muito, deixando pouco espaço para outras dimensões de texto e prosa. Pelo menos comigo foi assim, não achei esse espaço. De repente, caiu-me sob os olhos um blog de uma pessoa, talentosa e inspiradora, cujos textos me tocaram bastante pela autenticidade, pela inteligência e pela espirituosidade. Textos bons, gostosos, apaixonados, românticos. Alguns de reflexão. Morri de inveja da coragem e, de troco, voltou a vontade de escrever. Voltou a inspiração. Percebi então que minha autocrítica andava me solapando. Que virei um pretensioso. E um covarde. Há uns dois anos escrevo solto em cadernos de espiral sobre o que me passa na cabeça. Quase que por necessidade. Eu os chamo esses escritos de "roda livre". Soltos, desestruturados, meio que terapêuticos, de mim para mim, sobre mim. Mais umbigo impossível. Um tanto neuróticos, investigativos das minhas manias, obsessões, tendências, emoções. Do que se passa na minha cabeça naquele exato momento. Não seguem uma linha de raciocínio, uma direção, nada. Não são escritos para serem lidos. Não fazem sentido para ninguém. Talvez interessem a algum psiquiatra diletante à cata de uma patologia qualquer para chamar de sua. Escrevo ali com minhas canetas tinteiro, que adoro, coleciono, curto desde a infância. Curto a estética, o design, o mecanismo de funcionamento. Curto o escorregar da pena no papel, o colorido das tintas, o volume das páginas, a qualidade e o cheiro do papel. Tive de me adaptar ao editor de texto, que facilita a vida na hora de corrigir, de redizer, de cortar e colar, de sinalizar com itálicos, negritos, sublinhados, etc. 

Agora, experimento o blog como um exercício de liberdade pessoal, uma permissão dada a mim mesmo; com uma ousadia ainda acovardada, procurando desvestir (e desarmar) o personagem defendido que fui construindo ao longo da vida, para tentar encontrar uma outro, interno, que tenha estórias a contar, humores a expressar, que possa dizer, ver e sentir outras coisas, outros sentidos. Com medo do ridículo, é claro. Com medo de parecer pretensioso, petulante, arrogante, desinteressante. Com medo de fazer o que Nelson Rodrigues chamou de "literatice". Veremos no que dá essa brincadeira. É só uma brincadeira. Que me desculpe o leitor, se não lhe agrado, entretenho, divirto ou transporto a outro mundo, outra dimensão. Me conforta o fato de ser simples e fácil livrar-se de mim, caro leitor: pare de ler. Delete. Não vá adiante. Critique, meta o pau ou ignore. Escolha.