LITERATICE
"Se eu tivesse que dar um conselho, diria aos mais jovens: - não façam literatice.
O brasileiro é fascinado pelo chocalho da palavra."
Nelson Rodrigues
Não me sai da cabeça o conselho de Nelson Rodrigues aos mais jovens:
- "não façam literatice".
Confesso aqui o grande fantasma que me ronda: o medo de desagradar o leitor. Tenho verdadeira paúra de fazer "literatice", de incomodar os outros com uma literatura que seja uma chatice. Literatura..., em termos. É palavra emprestada, é "modo de dizer", pois não acho que esses textos esparsos sejam de fato literatura - são ensaios talvez, despretensiosos na sua maioria. Não só os meus, mas a maioria dos textos que se encontra nos blogs hoje. Alguns são muito bons, excepcionais até. Revelam imensos talentos que vão muito além do simples rabisco, do rascunho de pensamentos, do desabafar do que lhes vai à cabeça. O contraponto, porém - e é bom que assim seja -, é que a maioria dos blogs revela esse delicioso exercício da liberdade de expressão: a vontade de contar uma história, de falar sobre um assunto qualquer, de eventualmente fazer ficção, sem pretender necessariamente ombrear Machado de Assis, o mago do texto, o maestro dos pincéis da escrita. A grande arte machadiana de desenhar uma estória com as palavras, frases, parágrafos, formando páginas de pura fantasia. A arte de pincelar nuances, cores, sombras, mundos paralelos e transportar o leitor em uma nave fantástica para uma viagem imaginária a lugares e situações que lhes pareçam ao mesmo tempo novos, inesperados, deslumbrantes e ainda assim familiares. Uma arte mágica, como todas as artes. Não são as artes todas um exercício de magia, de feitiçaria - se preferirem, de bruxaria?
Mas voltando à pedra do meu sapato, presumo que não sou o único a ser assombrado por este fantasma. Todo aquele que escreve teme o risco de desagradar, de chatear o próximo. Não que seja possível agradar a todos; ninguém consegue agradar a todos o tempo todo - aliás, nem enganar, já dizia Churchill. Por outro lado, desagradar a todos não tem nada de impossível... Sobretudo se esse "todos" seja um universo formado por um pequeno número de pessoas cujo julgamento nos interessa. Sinto-me pretensioso ao escrever textos sem perguntar se alguém os quer ler; por vezes acho ridículo o propósito de querer entreter o leitor, prender sua atenção, divertí-lo ou simplesmente deixá-lo curioso. A sedução do leitor imaginário é um desafio para quem escreve. Um desafio nada desprezível de superação de si mesmo, da implacável auto-crítica castradora. Fomos aculturados para andar de mãos dadas com a humildade e a modéstia, desde sempre. Mas serão a modéstia e a humildade eficientes propulsoras dos motores da criatividade? Parece que não. Não servirão ambas de filtro que restrinja a maravilhosa megalomania criativa, da loucura desenfreada, da ousadia da expressão livre, solta e desimpedida?
Esta aí o desafio, superar as amarras internas para expressar livremente. Não é pouco.
Esta aí o desafio, superar as amarras internas para expressar livremente. Não é pouco.
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