domingo, 8 de dezembro de 2013

Nunca pensei... (intento do Blog - comece por aqui)


Nunca pensei em escrever num Blog, muito menos construir e manter um. Nunca me imaginei publicando textos vindos do nada, só de dentro da cachola. Nunca ousei publicar nada que não fosse uma opinião profissional, racional, ponderada e direcionada. Nunca pensei em expor-me dessa forma: escrita. Nunca achei que tivesse algo interessante a dizer, a contar, a descrever ou a indagar. Nunca pensei que alguém pudesse se interessar pelo que eu tivesse a dizer. 

Sempre gostei de escrever. Da magia de criar e contar uma estória. De vê-la modificar-se, adquirir vida própria, caminhar para um caminho bem diferente do traçado inicialmente. Minha mãe me dizia que eu escrevia muito bem - diz até hoje, a querida. Mas o que vale uma opinião de mãe? Ela se impressionava pelo fato d'eu escrever-lhe cartas quando viajava. Escrever cartas, eu escrevia. Muitas. Todas à mão, em papel seda para diminuir o peso e não custar caro o selo. Postadas no correio, demoravam dias a chegar ao destino. Daquelas que quando se escrevia, se imaginava a cara do destinatário (ou destinatária), surpreso com a chegada da carta, passando pelo "frisson" e a ansiedade em abrir logo o envelope, correr ao quarto e ler com sofreguidão o que ali estava escrito. Na minha adolescência mantive com namoradas que moravam no interior uma rotineira correspondência semanal, às vezes por anos a fio. Cartas de amor, inspiradas pelo espírito do jovem apaixonado, impulsionadas pelos hormônios saltitantes e abundantes da época. Cartas em que se dizia o que não se falava. Às vezes, no embalo, dizia o que nem sentia...

Não revelei ao mundo nenhum talento literário muito especial. Vez por outra me diverti escrevendo emails fantasiosos a amigos, por pura gozação. Se os encontrar, vou postá-los aqui e ver como ficam. Ouve época em minha vida que achava que achava que poderia escrever o que quisesse, tal minha verve fervilhava; sentia disposição de escrever qualquer coisa: romance, ficção, crônica. Poesias não - eram sofríveis. Mas não o fiz. Essencialmente por vergonha, mas também por priorizar meu tempo à minha profissão. Pois é, sou advogado. E advogado escreve muito, deixando pouco espaço para outras dimensões de texto e prosa. Pelo menos comigo foi assim, não achei esse espaço. De repente, caiu-me sob os olhos um blog de uma pessoa, talentosa e inspiradora, cujos textos me tocaram bastante pela autenticidade, pela inteligência e pela espirituosidade. Textos bons, gostosos, apaixonados, românticos. Alguns de reflexão. Morri de inveja da coragem e, de troco, voltou a vontade de escrever. Voltou a inspiração. Percebi então que minha autocrítica andava me solapando. Que virei um pretensioso. E um covarde. Há uns dois anos escrevo solto em cadernos de espiral sobre o que me passa na cabeça. Quase que por necessidade. Eu os chamo esses escritos de "roda livre". Soltos, desestruturados, meio que terapêuticos, de mim para mim, sobre mim. Mais umbigo impossível. Um tanto neuróticos, investigativos das minhas manias, obsessões, tendências, emoções. Do que se passa na minha cabeça naquele exato momento. Não seguem uma linha de raciocínio, uma direção, nada. Não são escritos para serem lidos. Não fazem sentido para ninguém. Talvez interessem a algum psiquiatra diletante à cata de uma patologia qualquer para chamar de sua. Escrevo ali com minhas canetas tinteiro, que adoro, coleciono, curto desde a infância. Curto a estética, o design, o mecanismo de funcionamento. Curto o escorregar da pena no papel, o colorido das tintas, o volume das páginas, a qualidade e o cheiro do papel. Tive de me adaptar ao editor de texto, que facilita a vida na hora de corrigir, de redizer, de cortar e colar, de sinalizar com itálicos, negritos, sublinhados, etc. 

Agora, experimento o blog como um exercício de liberdade pessoal, uma permissão dada a mim mesmo; com uma ousadia ainda acovardada, procurando desvestir (e desarmar) o personagem defendido que fui construindo ao longo da vida, para tentar encontrar uma outro, interno, que tenha estórias a contar, humores a expressar, que possa dizer, ver e sentir outras coisas, outros sentidos. Com medo do ridículo, é claro. Com medo de parecer pretensioso, petulante, arrogante, desinteressante. Com medo de fazer o que Nelson Rodrigues chamou de "literatice". Veremos no que dá essa brincadeira. É só uma brincadeira. Que me desculpe o leitor, se não lhe agrado, entretenho, divirto ou transporto a outro mundo, outra dimensão. Me conforta o fato de ser simples e fácil livrar-se de mim, caro leitor: pare de ler. Delete. Não vá adiante. Critique, meta o pau ou ignore. Escolha. 

Um comentário:

  1. Sei que não me permites dizer ADOREI, mas em verdade este é o sentimento.
    Com uma pontinha de inveja desta coragem que eu mesma gostaria tanto de ter.
    A coragem de escrever livremente, com um medinho da crítica, mas assim mesmo escrever e dar um pouco de mim àqueles que se interessarem.
    Vá em frente Zé!!

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