Tempestades
Tempestades são assim, varrem tudo o que encontram pela frente. Dentro de nós, lavam nossa alma e, com ela, nossas certezas, nossos pontos de apoio, nossas ancoragens. Nossa bússola vira pomba gira, nosso contador perde a conta.
Ninguém sabe ao certo o que se passa dentro de nós. Nem nós mesmos. Ninguém sabe ao certo o que sentimos, onde sentimos, como sentimos e quanto sentimos. Ninguém sabe o que vemos, cremos e temos por dentro, o que guardamos de cada tempo, de cada toque, de cada gesto, de cada palavra, olhar, movimento. Ninguém sabe das tempestades que abrigamos dentro dos nossos corações, das nossas emoções, nossas comoções e nossas visões. São tempestades que destroem, lavam, varrem, movem, tremem, deslocam pedaços enormes de antigos nós.
Ninguém sabe ao certo do vulcão que explode esse magma que ao sair, sai estourando, borbulhando, aos vômitos, aos soluços, aos berros, aos prantos, às gargalhadas, às porradas.
Quanto sofrimento para atravessar esse tempo de tempestade, de lava, de cinza, de lama. Tempo cinzento, frio, viscoso e chuviscoso; tempo de raios, ventos e trovões que tudo mexe e remexe. Um tempo de perda, de esvaimento, de desperdício, de alegria que parte, de angústia que chega; até chegar a um estado triste e melancólico de calmaria sem rumo.
Tempo ruim. E não há outro jeito, não há outra forma nem opção. Sem tempestade não há bonança. Sem rompimento não há refazimento. Que forças da natureza são estas que demoram tanto para acalmar, para amainar, para dar enfim lugar ao renascer, reconstruir, alvorecer, florescer.
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