Num tempo em que só se fala do pós-feminismo, da relação de igualdade entre gêneros, do anti-machismo, do poder das mulheres, da vigilância ao linguajar potencialmente discriminatório entre outras chatices politicamente corretas que vão se nos impondo, a leitura de "Coração de Pai", de José Ruy Gandra é um bálsamo para a paternidade. Um relato de arrepiar o profundo drama da alma de um pai preocupado com o destino de seus filhos.
Zé Ruy é amigo de muitos anos reencontrado há pouco e redescoberto nesta obra corajosa, aberta e de uma sensibilidade ímpar. Aqui ele fala da paternidade de forma escancarada e sem proselitismo, com ênfase nas pequenas coisas, na descoberta do seu particular "Deus das pequenas coisas", que de fato é o que interessa na vida. Suas histórias, reflexões e preocupações com a educação de seus filhos transparece nessa obra em que ele nos conta em preciosas gotas que descrevem o que todos nós, pais, sentimos com relação aos nossos filhos. Preocupações de pais de uma geração em que o feminismo transformou o papel masculino num problema de menor ou nenhuma importância.
Após passar pela pior tragédia que um pai pode passar, aquela contra a ordem e a natureza das coisas, que é a perda de um filho, o jornalista, historiador (e agora filósofo) Zé Ruy ainda tem a coragem de expor sua "dor sem remédio", seu coração sangrando na procura de sentido para a vida. A procura por que passam todos os pais.
Zé Ruy tem estilo, cultura e uma prosa deliciosa em que vai destilando em sínteses inteligentes esse fenômeno tão pouco comentado em nossos dias: a paternidade. E resgata a real dimensão e a nobreza do papel de pai.
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