sábado, 14 de junho de 2014

O que se escreve não se diz

O que se escreve não se diz

Então é assim. Não se diz o que se escreve. Vive-se este aparente paradoxo. Escrevemos para dizer, mas não dizemos o que escrevemos. E vice versa. Há coisas que dizemos que não escrevemos; por não termos certeza, por não termos pensado, por que sai de qualquer jeito ou para não deixar registro. Seja lá qual for a razão.

Comigo assim se passa: escrevo o que não digo. Digo na escrita o que não consigo dizer de outra forma. Porque de outra forma digo mal, digo pior, digo torto, digo errado. Invejo o artista plástico (e mais ainda o músico), que dizem de outra forma, dizem noutra língua. Eu digo e corrijo, refaço, rescrevo, redigo, até parecer que está perto da penúltima versão do que quero dizer. E continuo insatisfeito por não tê-lo dito melhor. Quero voltar a todo momento e redizer. É mais do que solitário o ato de escrever, é inseguro, egoísta, muitas vezes paranoico e isolado do mundo externo. Escrever evita a expressão daquele que te ouve, te olha ou te contempla, do efeito que causa no outro. Escreve-se para si mesmo, enfim. Mas com a paradoxal esperança de ser ouvido, entendido, compreendido. E, porque não, visto. 

Não importa muito como o outro leu, interpretou, compreendeu. Cada um entende como pode a sua leitura, conforme o seu próprio contexto, sua cultura, sua história de vida, suas sinapses, suas carências, "nóias" e "neuras". É difícil explicar ao outro esse universo interno que se expressa na forma escrita, esse processo de aperto, de espremer a fruta até o caroço, da busca interior de um relato, uma história, uma estória ou uma rima que, se não sai da cabeça, se dissipa, se dissolve, desaparece, vira nada. Então se escreve e se conta o caso. Dá-se espaço a esta necessidade de expressar visões, sentimentos e emoções que nos tomam por dentro e que não querem mais ficar ali, precisam de espaço, pedem passagem. E aí procuram vida no texto, no dito, no não dito, no maldito, no mau dito (ou porcamente) dito. O que mais importa se é isso mesmo, expressar, simplesmente expressar. Dizer.

Até que uma hora uma figura se projeta, um desenho aparece, uma forma toma corpo e uma história se relate. Se ela tocar em alguma corda interna, muito que bem. Se ela tocar numa corda do outro, melhor ainda. Se não, fica ali mesmo, sozinha, em seu canto, seu recanto, sua caixinha fechada.

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