Memória do vinho
Gosto não se discute; lamenta-se, diz o ditado.
Nelson Rodrigues dizia que a unanimidade é burra. Tão burra quanto as certezas absolutas de um jovem, tão besta quanto a assertividade do militante radical, tão estúpida quanto a arrogância do ignorante. Em quase tudo o que diz respeito à nossa percepção sensorial, há discussão, diferenças de pontos de vista, memórias desencontradas, díspares, contraditórias.
Sobretudo sobre o gosto. Gosto depende de referência. Ou melhor, das referências. Se o sujeito nunca experimentou uma laranja e uma mexerica, não terá repertório para distinguir uma de outra. Se não foi apresentado aos pintores impressionistas, não poderá diferenciá-los dos renascentistas ou dos contemporâneos. Que o diga Brillat Savarin.
O mundo do vinho não é diferente. Pode-se estudar vinho e aprender de cor as regiões, os tipos, os produtores, as variedades das uvas e as características organolépticas de cada vinho. Pode-se ler e memorizar suas detalhadas descrições, feitas pelos "experts". Porém, sem experimentar cada um, o conhecimento é meramente intelectual, enciclopédico; o sujeito não tem condição de avaliar um vinho apenas porque "ouviu dizer" que ele tem boa acidez e que é agradável no pálato. Pode repetir as opiniões de quem o fez, apenas. Como um papagaio.
Muito bem. O chamado "gosto sofisticado", - aquele capaz de identificar um grande número de nuances -, forma-se de uma vivência atenta, de uma larga experiência que se acumula em camadas que se sedimentam na memória e no coração de quem tem muitos pontos de referência e de comparação. A memória, nesse caso, é um misto de sensações gustativas (aromas, cores, sensações de boca como acidez, amargor, doçura, etc) associadas a observações de caráter racional (nome do produtor, região, safra, etc) proporcionadas pela experiência vivida num copo daquele vinho. E acrescento: num determinado lugar, em companhia de determinada pessoa, acompanhando um determinado prato e, finalmente, vivendo um determinado estado de espírito. Não se trata, portanto, da memória de um conhecimento linear, mas de uma "experiência", um misto de sensações olfativas, gustativas e sociais, associadas a algumas referências de dados frios como safra, ano, preço, produtor, etc.
Muito bem. O chamado "gosto sofisticado", - aquele capaz de identificar um grande número de nuances -, forma-se de uma vivência atenta, de uma larga experiência que se acumula em camadas que se sedimentam na memória e no coração de quem tem muitos pontos de referência e de comparação. A memória, nesse caso, é um misto de sensações gustativas (aromas, cores, sensações de boca como acidez, amargor, doçura, etc) associadas a observações de caráter racional (nome do produtor, região, safra, etc) proporcionadas pela experiência vivida num copo daquele vinho. E acrescento: num determinado lugar, em companhia de determinada pessoa, acompanhando um determinado prato e, finalmente, vivendo um determinado estado de espírito. Não se trata, portanto, da memória de um conhecimento linear, mas de uma "experiência", um misto de sensações olfativas, gustativas e sociais, associadas a algumas referências de dados frios como safra, ano, preço, produtor, etc.
Ora, se esse conhecimento vem do conjuntos de experiências vividas, é certo que um jovem sommelier é uma contradição em termos, um oxímoro. Se é jovem, ainda que talentoso, de sensibilidade aguçada e memória privilegiada, não teve ainda a oportunidade de criar cultura, de degustar vinhos o suficiente das diversas safras das diversas regiões do planeta. E há muitas variações, há inúmeras. Lançam-se novos vinhos todos os dias. Assim, um jovem talentoso e curioso será sempre, e apenas, um projeto de sommelier. Um verdadeiro sommelier precisa de muitos anos e muitos litros de vinho para formar as camadas de vivência necessárias a um profissional desse ramo. Além, é claro, de bom nariz, boa boca e a tal da privilegiada memória gustativa. Essa capacidade de identificar (e nomear) os aromas com alguma clareza, que poucas pessoas tem.
Nós, humanos, evoluímos a espécie atrofiando uma série de percepções sensoriais, por não serem mais essenciais à nossa sobrevivência. O olfato é uma delas. Um cão sente o cheiro de uma cadela no cio a três quilômetros de distancia. Cada um de nós tem seu próprio odor e reconhece o dos próximos, apesar de mascarado pelos perfumes, cremes, sabonetes, shampoos, desodorantes que usamos todos os dias. Ou seja, criamos uma confusão olfativa para nós mesmos. Ao usarmos perfumes, criamos disfarces do nosso próprio odor, damos a ele uma vestimenta, escamoteando nossa identidade original. Isso mostra o quanto deixou de ser importante o olfato para a nossa sobrevivência.
Claro que os amantes ainda se enebriam com os odores dos amados. Claro que ainda rejeitamos o leite talhado e o alimento estragado. Mas perdemos muito da confiança que já tivemos no passado no sentido do olfato. O ser humano concentrou suas percepções no sentido visual.
Nós, humanos, evoluímos a espécie atrofiando uma série de percepções sensoriais, por não serem mais essenciais à nossa sobrevivência. O olfato é uma delas. Um cão sente o cheiro de uma cadela no cio a três quilômetros de distancia. Cada um de nós tem seu próprio odor e reconhece o dos próximos, apesar de mascarado pelos perfumes, cremes, sabonetes, shampoos, desodorantes que usamos todos os dias. Ou seja, criamos uma confusão olfativa para nós mesmos. Ao usarmos perfumes, criamos disfarces do nosso próprio odor, damos a ele uma vestimenta, escamoteando nossa identidade original. Isso mostra o quanto deixou de ser importante o olfato para a nossa sobrevivência.
Claro que os amantes ainda se enebriam com os odores dos amados. Claro que ainda rejeitamos o leite talhado e o alimento estragado. Mas perdemos muito da confiança que já tivemos no passado no sentido do olfato. O ser humano concentrou suas percepções no sentido visual.
Mas voltemos a um curioso fato no mundo do vinho, que é o momento em que se experimenta o mesmo. Dependendo da companhia, do lugar, da temperatura, da fase da vida e do humor vividos naquele instante, entre muitos outros fatores, gostamos mais ou menos do vinho que experimentamos. Fazemos associações mais positivas ou negativas. As diversas emoções se misturam às percepções sensoriais. Quantas vezes não nos deliciamos com um vinho tomado numa viagem de férias e, ao abrir o mesmo em casa, para onde voltamos com uma garrafa debaixo do braço, percebemos que não era tão fantástico assim? É que aquela primeira experiência foi influenciada pela emoção da beleza do lugar, pelo clima, pelo momento especial que então vivíamos e influenciou, assim, nossa percepção de uma experiência gostosa, inesquecível. Esse conjunto de emoções associado a sensações não se reproduz facilmente. Por isso diz-se que a melhor adega não é a física - mas sim aquela que está na memória das pessoas. E certamente não é uma memória técnica, acadêmica. É uma memória emocional, que se desenvolve e engrandece com a companhia de com quem se partilha aquele momento.
Por isso duvido das notas do Robert Parker, Wine Expectator e outros. Não se pode acreditar em opiniões pretensamente "técnicas" e isentas sobre um vinho. É preciso dar o devido desconto (cultural, emotivo e social) a tais avaliações. E não esquecer que não interessa apenas o que se bebe, mas com quem se bebe e em que condições.
Para que o vinho não azede.
Para que o vinho não azede.
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