Elas não sabem (sobre o dia dos pais)
Há dia para tudo nos tempos que vivemos. Dia da costureira, dia do advogado, da secretária, da criança, das mães e dos pais. Nos 365 dias do ano, caberia até um dia do depressivo, do louco varrido, do assaltado, da ninfomaníaca, do taradão, do cidadão. Cada dia é dia de alguém.
Amanhã é dia dos pais. Nunca ouvi falar de dia dos filhos; da criança sim, mas do filho não. Engraçado é que não dá para falar de pai sem falar de filho. O contrário até pode. Mas no dia dos pais, data bastante deturpada comercialmente, lembro do papel de pai e de filho que tenho a sorte de vivenciar hoje, das referências que tenho e que vivi, dos pesos e delícias desses papeis que - um dia chegará -, culminarão com o de avô. Um dia eu falo do meu pai, figura forte, complexa, presente em minha vida. Hoje não. Não é [o meu] momento de falar nele. Hoje é dia de falar dessa necessidade atávica de se perpetuar no mundo, de plantar semente, de contribuir para a sobrevivência da espécie e de reparar no quanto nos afastamos da medida do simples, do direto e do evidente. Com dificuldade de sair do clichê, da frase feita, do pensamento redundante. E reparar na figura paterna como uma bússola interna, que emerge após matarmos o pai no final da adolescência e ressuscitá-lo mais tarde na vida adulta, quando o homem se reconcilia consigo através do privilégio de vir a ser, ele também, pai.
As mulheres não sabem disso. A paternidade para elas é outra coisa. Só uma mulher poderá dizer com pertinência o significado do pai para elas; que ela o faça. Não digo que não é importante o pai na vida das moças, muito ao contrário, às vezes chega a ser doentiamente importante. O que digo é que a maternidade é tão mais forte e mais impressionante para a humanidade, que nós homens aprendemos a nos conformar com esse papel coadjuvante.
Para compensar, nesses tempos de platitudes simplistas como a afirmação fictícia de uma ridícula e patética igualdade entre homens e mulheres, seres não apenas naturalmente desiguais mas, para além disso, muito diferentes, pensar na paternidade nos ajuda por pingos em "is". Pensar que servimos para plantar uma semente...
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