sábado, 22 de março de 2014

Imaginei autrement

Imaginei que a vida fosse longa, infinita até, 
que todos fossem iguais,
que as pessoas fossem boas,
que amassem umas às outras,
que tivessem consciência do bem e do mal, 
que a consciência do bem evitasse o mal; 
que o mal fosse necessário, mas não prevalecesse,
que existissem relações desinteressadas,
que a inteligência abundasse,
que burrice tivesse jeito (e limite),
que tibieza de caráter tivesse conserto,
que a natureza fosse apenas boa e generosa, 
que a verdade existisse (e triunfasse), 
que houvesse o certo e o errado,
que o fato fosse mais importante que a versão, 
que a justiça fosse feita, 
que a democracia fosse eficiente,
que o amor fosse lindo, sempre, 
que Deus existisse, ouvisse, castigasse e perdoasse,
que o Diabo também existisse, subordinado a Deus, 
que para tudo houvesse cura, 
que tudo se resolvesse, 
que tudo acabasse bem.

Imaginei que pudesse ser assim.

Mas assim não é.

Imaginei autrement

Patologia dos arrogantes

Arrogância é uma das características de pessoas que tiveram sucesso no bairro e se acham donas do mundo, da verdade e das pessoas do seu entorno. Você as conhece. Elas tem um ego complicado.

Algumas delas são egocentradas, olham o mundo tendo apenas a sua pessoa como a principal, se não a única referência. Uma bússola que aponta ao próprio umbigo. Desconfiadas, defendidas, não raro vivem delírios persecutórios e por vezes sofrem de pseudo-clarividência - julgam saber o que os outros pensam, querem, sentem. Não hesitam em agredir ao menor sinal de ameaça ao reino do seu ego encastelado.

Outras são apenas egoístas, insaciáveis consumidoras individualistas que querem tudo para si. São as mais comuns e, a rigor, as menos danosas à humanidade - são as ambiciosas de plantão, com esta qualidade que vem sendo tolerada e até cultivada em nossos dias. Todos somos pessoas egoístas, em certa medida. As pessoas arrogantes só exacerbam.

Por fim, existem os ególatras, os que idolatram o próprio ego. Incapazes de amar, o único motivador que lhes move é o self. Narcisistas por natureza, o que  mais lhes importa na vida é a própria imagem que é a sua primeira e, por vezes, a sua única referência. Tendem a relacionar-se apenas com admiradores, bajuladores, aduladores - pelos quais tem nítido desprezo - cidadãos de 2a classe. Almejam séquitos de fãs e fogem da crítica como o diabo da cruz. Podem ser histriônicas ou mais comedidas. Mas nunca aceitam a paridade com o próximo. Estão sempre acima.

Você reconhece alguma delas à sua volta? Pertencem à enfermaria que você usualmente frequenta? Trate-as com cuidado. Pessoas assim podem morder e machucar os incautos.

domingo, 16 de março de 2014

Enorme decepção

Eu a entrevi no ônibus, a caminho da faculdade. Subiu duas paradas após a minha. O ônibus lotado, o calor da manhã apenas começando. Só a vi de relance e curioso fiquei para saber como ela era. O brilho e a cor do seus abundantes cabelos levemente cacheados chamaram minha atenção. Um castanho claro acobreado, com mechas arruivadas, num corte reto batendo um palmo acima da cintura. Lindos cabelos. Só faltava ser bonita também, pensei. Mas não consegui ver seu rosto até descermos juntos no ponto da faculdade, que fervilhava com a volta às aulas naquele verão. Ali percebi que era realmente bonita. Faltava checar detalhes: o sorriso, os dentes, as orelhas, mas o conjunto, de longe, agradava. Não tinha a beleza explosiva das loiras nem a agressiva das morenas. Era uma beleza discreta, harmoniosa, que não forçava passagem, passava apenas. A pele, muito branca com sardas claras, formava uma estampa delicadamente rendada. 

Vestia uma calça jeans e uma camisa azul larga, por cima da calça, não permitindo ver seus contornos com nitidez. Parecia mais para o "cheinha". Os olhos eram amarelo-claros, grandes e lindos. Fui seguindo-a, enfeitiçado pelo balanço do quadril e do movimento dos cabelos enquanto andava. Tínhamos uns 5 minutos de caminhada nos corredores antes de chegar às classes e aproveitei cada um deles na caminhada. Apaixonei-me pela ruivinha de imediato. Não sabia qual o seu curso, só faltava ser uma nova colega de classe! Mas não, desviou-se para a rampa da pedagogia; continuei em direção à minha classe. 

No intervalo das 10.20h, desci à cafeteria apressado, procurando-a com sofreguidão. Aquilo fervilhava de gente. Era impossível achar alguém ali. Pedi ao caixa um expresso e um pão de queijo e, após 10 minutos de espera na fila, fui disputar um atendente com uma turba de estudantes esfomeados e afllitos. Um calor insuportável, uma gritaria ensurdecedora. Quando dou por mim, estou ao lado dela. Era uns 30 centímetros mais baixa do que eu. Dava pulinhos, agastada, tentando ser vista por algum atendente. Não pensei duas vezes e ofereci-me, sorrindo: "quer que eu peça o seu pedido junto com o meu?". De início olhou-me um pouco assustada, mas tomada pela cumplicidade juvenil e até um pouco aliviada, passou-me o seu ticket dizendo:

- Ai! Obrigada, quero sim, isso aqui está impossível para uma baixinha como eu. Eu queria um suco de pêssego e um sanduíche natural, por favor. 

Meu coração disparou, fantasiando grandes possibilidades vindas daquele golpe de sorte. Disse-lhe para esperar na mureta que eu levaria tudo a ela. Excitado com a oportunidade e cheio da energia que só o amor pode dar, virei um leão naquele balcão e gritei o pedido com tal força que o atendente parou e olhou-me assustado. Enfiei os pedidos em sua mão com uma nota de 5 Reais e ele serviu-me logo em seguida, entregando-me dois sacos brancos de papel com o sanduíche dela, meu pão de queijo e a latinha de suco.

Dirigi-me à mureta onde aquela ruivinha linda estava e entreguei-lhe seu sanduíche e a lata de suco. Ela sorriu-me lindamente, agradecendo a gentileza. Pôs tudo em cima da mureta e, com as mãozinhas pequenas levantou aqueles cabelos maravilhosos, prendendo-os num rabo de cavalo. Então reparei nas suas orelhas - enormes, desproporcionais, daquelas de açougueiro italiano. Ainda por cima, de abano, coitadinha. Tive um baque sério. Quase tropecei. Fiquei sem graça e despedi-me apressadamente, tomando o rumo da minha classe com meu pão de queijo morno no saquinho, frustrado, macambúzio, desgraçado. 

"Putz!" disse em voz baixa, "era tão bonitinha..."





domingo, 23 de fevereiro de 2014

Dez semanas em Londres

Abril de 2011

Após uma série de sustos e percalços um tanto sérios na vida, resolvi propor - à minha mulher e a mim mesmo - uma temporada de afastamento em algum lugar. Um período sabático de uns 12 meses, pensei, seria ideal. Estava "à bout", como dizem os franceses. Esgotado, sem rumo, com a bússola interna parecendo uma pomba gira. Sentia-me levado pelos acontecimentos e empurrando a vida com a barriga que, aliás, andava bem inchada e em ritmo de crescimento acelerado. 

Pensei em vários destinos para justificar o afastamento desse mundinho nosso de cada dia: um curso em Harvard, um período na Provence ou mesmo uma temporada em Paris, onde minha mulher, sofisticada Chef nas horas vagas, faria o curso do Cordon Bleu, seu sonho de consumo. Curioso de cozinha, eu filaria algumas aulas e procuraria algo que me interessasse, como um bom curso de vinhos ou de política ou de filosofia.

Planejada inicialmente para um ano, a viagem foi sendo reduzida paulatinamente até chegar 3 meses que viraram 10 semanas. Foi o que pude fazer. Quem tem coragem para se afastar de seu próprio escritório durante um longo período? Como disse um amigo, um longo sabático tende a implodir algumas pontes... Não era bem essa a minha intenção.

Ainda duvidando do acerto da decisão, decidi arriscar. Eu precisava de um tempo para repensar a vida e isso me parecia urgente. Precisava me afastar do meu  dia a dia. E fui prontamente apoiado pelos meus principais "stakeholders": minha mulher e meu principal sócio.

A escolha do local e do que fazer foi sendo pensada, refletida  e questionada. Continuei procurando algo interessante em Harvard e pensando na querida França, onde tinha morado 4 anos. Opções confortáveis do ponto de vista de justificativa à corte e a mim mesmo. Mas havia algo em ambos os destinos que não me caía bem e eu não sabia dizer o que era. Lembrei que alguns meses antes, tínhamos passado uns dias em Londres, cidade de péssima lembrança minha. Fomos lá por insistência do meu querido irmão que convidou-me a revisitar um preconceito que eu tinha com a cidade. Por lá ele e eu havíamos passado uma temporada de uns 30 dias, no verão de 1978, para um curso intensivo de inglês. O tenebroso inverno em Londres deixou péssimas lembranças  no estudante duro. Guardei na memória uma cidade escura, acinzentada, fria, úmida, dura e onde se comia muito mal. Os dias clareavam depois das 9 da manhã e escureciam antes das 4.30 da tarde. Como ficávamos fechados o dia inteiro na escola, só víamos a luz do dia quando saíamos para almoçar nos pubs próximos, onde experimentei a famosa "kidney pie". Ali cortei definitivamente relações com a culinária inglesa. Em resumo, um horror.

Nessa visita mais recente, tudo estava diferente e percebi que meu irmão tinha toda razão: conheci outra Londres: limpa, agradável, com uma vida cultural pujante e uma série de ótimos restaurantes, além dos museus, da cultura de uma educação cerimoniosa que revela um venerado respeito ao outro. Nada disso batia com a memória juvenil do estudante que passou frio e fome ali. Enamorei-me da cidade. A idéia de instalarmo-nos naquela cidade atraiu-me justamente por não ter nenhuma raiz ali, o que me distanciaria ainda mais do meu caldeirão de demandas, expectativas, frustrações e estresse.

E o que fazer em Londres? Foi aí que, antes mesmo da partida, percebi um resultado positivo da minha decisão relativa ao período sabático. Perguntei-me: porque eu precisaria de uma justificativa para afastar-me? Para quem eu teria de me justificar? E dei-me conta que não estava a fim de fazer curso nenhum. Eu estava é esgotado, não queria fazer nada além de afastar-me e deixar correr o tempo para pensar na vida. E justamente essa obrigação de justificar-me é que estava me incomodando nas opções Harvard e Paris. Não eram opções autênticas; eram uma desculpa esfarrapada que me gerariam um sacrifício desnecessário. Eu não precisava de justificativa, sobretudo para mim mesmo. E assumi: vou bundar com o Frederico, vou fazer o que me der na telha - lá vejo o que há para fazer. E se não me der bem em Londres, mudo para Paris, que fica a 2 horas de trem dali ou outro lugar qualquer. Senti-me livre e esta sensação agradou-me. E assim alugamos um flat ótimo, na Sloane Avenue, em Chelsea - maravilhosa localização a um preço razoável (nosso Real à época estava fortíssimo). Ou seja, tudo conspirou para que desse certo.

Fomos assim com o só propósito de passar os dias em Londres. Livres. Vagueando pela cidade e por nós mesmos. Um amigo perguntou-me: mas você vai levar a sua mulher?? Ao que eu prontamente respondi: lógico, até onde sei não vem dela a crise que enfrentava. A crise poderia até afetar o relacionamento do casal, mas o casal não era o epicentro da mesma. Pelo contrário, minha mulher tem sido uma grande companheira de vida e passava, de seu lado, por suas próprias crises, naturais das fases femininas e perrengues da vida que tinha vivenciado ultimamente. Estávamos na beira de enfrentar a tal da "síndrome do ninho vazio", na medida em que nossos filhos planejavam sair definitivamente de casa.

Em Londres tivemos uma vida de bairro, fazíamos as compras no mercadinho em frente ao flat, mandávamos lavar as roupas na lavanderia também em frente, preparávamos as próprias refeições, e vivíamos um dia de cada vez, da maneira que nos aprouvesse. Com muitas permissões, que os ingleses chamam de "indulgencies". 

Não é muito chato não fazer nada? Não ter programação? Talvez para alguns seja um pesadelo. No nosso caso, o programa era justamente não ter programação, deixar correr os dias, viver o dia a dia, ver o tempo passar, fazer o que desse vontade, aproveitar as oportunidades dos dias corridos. 

Não fui a Londres procurar nada especificamente. Eu só queria um tempo, uma distância, olhar o todo de uma nova perspectiva. Viria o que viesse. Eu não estava à cata da luz salvadora nem do mapa do Paraíso. Não fui procurar o caminho dos monges do Tibet, nem uma revelação mística. Não fui procurar Deus. Não programei uma visita aos velhos sábios da India ou do Himalaia. Nem fiz de Londres uma Fátima. Não fiz dali o meu caminho de Santiago.

Claro que de alguma forma eu esperava clarear minha cabeça. Afastar para enxergar melhor. Refocar. Também não posso negar que estava à procura do meu eixo para encontrar a minha própria identidade, confuso que estava com os diversos papéis que vinha desempenhando até então. Papel de pai, de filho, de marido, de advogado, de professor, de membro da sociedade ao meu redor, etc. Onde estava o meu "self" nisso tudo? Qual era aquele que conectava todos os papéis? No correr da vida entregamos um pouco de nós a cada um desses papéis e, após,  cada um deles integra-se a nós. Eu a eles emprestei um tanto de mim e deles agreguei outro tanto. Mas tudo andava um pouco misturado, enrolado, de ponta cabeça. Os chacoalhos por que passei me levaram a um questionamento de valores e de direcionamento de vida. Estava com dificuldade em me situar. Vivia uma certa crise de identidade, uma crise que, percebi mais tarde, foi o início da minha passagem da vida adulta à fase mais madura em que me encontro. Foi o que me pareceu, sei lá. 

Por outro lado, nossos filhos estavam saindo de casa e um novo dimensionamento da vida do casal se impunha. Um novo olhar, um novo pacto para com a vida que tínhamos diante de nós. É um conhecido clichê essa conversa de que, ao passarmos pela crise da meia idade, precisamos procurar novos desafios, novos projetos, novos objetivos. Qualquer orelha de livro de auto-ajuda tem essa fórmula "secretíssima", essa panacéia universal. E as respostas que surgem  imediatamente são outros clichês, mais simplistas ainda. Sugestões pueris, bestas, completamente descontextualizadas. Praticar Iôôga? Colaborar numa ONG? Abrir um restaurante? Trocar a mulher por outra mais nova? Frequentar um curso de história da arte? É sempre fácil a resposta de quem olha de fora e procura racionalizar a vida alheia com a ladainha: "é preciso traçar novos objetivos, novas metas, novos projetos, "nhem nhem nhem", "trá-lá-lá". É resposta pronta, de prateleira. É tão fácil quanto criticar a educação dos filhos do vizinho ou resolver o problema enfrentado pelo casal amigo. De longe, tudo parece óbvio; mas não é.

Só posso falar de mim e digo que comigo as coisas não se passaram dessa maneira. Não foi nada disso. E também não deixou de ser. Primeira coisa: não dá para procurar algo que não se sabe o que é. Não dá para acreditar numa lista mágica de hipóteses feita por algum mestre "savant" do Himalaia ou, pior, algum professor de uma universidade americana. Não dá para se guiar por algum estudo publicado recentemente no Boston Journal of Human Sciences. Isso não se dá dessa forma planejada, racional, objetiva. Do tipo "arranje uma ocupação qualquer e não encha mais o saco". Segunda coisa: ainda que procurasse as saídas acima, no fundo o meu problema não era falta do que fazer. Percebi que o momento que eu vivenciava ali teria de ser enfrentado, encarado, compreendido e assimilado. E o meu reflexo instintivo para encarar o momento foi o de afastar-me: do meu dia a dia, das pessoas, dos problemas, dos caminhos rotineiros que nos aprisionam. Daí a procura de passar um razoável período distante de tudo, permitindo um "deixar vir", venha o que vier. Porque não me dar ao luxo? Mudando de cultura, de língua, de endereço, eu refrescaria e revisitaria minhas impressões, opiniões, valores, etc. Isso talvez me ajudasse a encontrar uma nova perspectiva. 

E assim partimos a Londres, para voltar dali a dez semanas. E o que aconteceu? Absolutamente nada. Nenhuma revelação mística, nenhuma luz divina se abateu sobre nós. Nenhum anjo me cochichou um recado divino. Nem um santo me revelou o caminho do paraíso.

Entretanto, com o passar dos dias, com o correr das semanas, nossa perspectiva de tempo foi se alterando. Isso foi precioso. O tempo era nosso, fazíamos o que queríamos, quando queríamos. Não tínhamos compromissos familiares, sociais ou profissionais; não tínhamos horário, não tínhamos qualquer outra obrigação. Não estamos falando aqui de um fim de semana ou de 15 dias de férias - estamos tratando de uma outra medida, bem diferente, de ter à frente de si 10 semanas de liberdade, de ócio. Essa retomada do domínio do tempo nos ajudou a perceber bem melhor o que é e o que não é realmente importante. Para a vida que tínhamos ali e para a nossa vida em geral.

Vivíamos num apartamento de quarto e sala e percebemos que não precisávamos muito mais do que aquilo para viver bem. Com um pouco mais, muito pouco mesmo, poderíamos ter ali todo o conforto que quiséssemos e mais a liberdade de ser e de se locomover sem carregar uma tralha pesada. O passar do tempo e o morar de forma mais simples nos fez chegar mais perto do essencial. E perceber que o essencial é simples. É básico. É funcional. O passar do tempo e a distância nos fez perceber bem mais claramente o quanto nos toma de tempo e energia o preenchimento de obrigações sociais e profissionais absolutamente dispensáveis. O passar do tempo e a simplicidade da vida que ali vivemos nos mostrou o quanto é dispensável ter coisas para ser. Taí outro clichê que se repete com frequência, mas não se experimenta. E reparamos no quanto acumulamos de objetos inúteis, de preocupações inúteis, de ansiedades inúteis, de obrigações inúteis, de gastos inúteis, de consumos inúteis. Aquele passar do tempo, aquela distância e a vivência do essencial nos mostrou isso: quanto mais nos ocupamos do inútil, do dispensável, do acessório, menos tratamos do essencial.

E o essencial é o simples, é o básico, é o fundamental. "O simples é o último estágio da sofisticação", disse Leonardo, o da Vinci. Simples são os amigos, os amores, as risadas, o construir, o dividir, o rir e o chorar. O resto é complicado e, a rigor, secundário.

Resumindo: Londres não revelou-me nenhum segredo místico, nem apontou-me o caminho do Céu ou mostrou-me a luz divina. Londres deixou-me perceber que é preciso estar atento ao essencial, que se deve pensar simples e que resolver as coisas de forma simples é o melhor caminho. Ainda que as coisas sejam complexas.

No fim das contas, Londres me transformou. E muito.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A esquerda caviar, festiva e de botequim



Acabo de ler livro de Rodrigo Constantino, "Esquerda caviar"(Record, Rio-SP, 2013, 428 p.). Comprei-o num impulso, ao vê-lo sobre uma pilha na Livraria Cultura; fiquei curioso e não resisti. Se gostei do livro? Não exatamente. Recomendo a leitura? Não estou aqui para isso; só posso dizer se gostei ou não da leitura e o porquê.

O livro tem muitas passagens divertidas com as quais me identifico. Vou citar duas delas, mas há inúmeras:

Sobre a preguiça mental : "Não é preciso estudar a fundo, pesquisar, refletir e pensar sobre como resolver de verdade os problemas. Basta aderir a um grupo, repetir meia dúzia de slogans bonitos e usar palavras mágicas como "justiça social", "tolerância", "diversidade", "sustentabilidade" e "paz" que você automaticamente ganha o respeito de muitos bobalhões e posa como alguém cheio de opiniões sobre os mais variados assuntos" (p. 48)

E ainda:

"O sujeito pega a sua viola, acende seu cigarro de maconha, canta músicas românticas de Lennon e Bob Dylan, e jura para si mesmo que fez mais pela humanidade do que os empreededores que produzem riqueza e empregos para a sociedade. Garçom, mais uma cerveja!" (p. 50)

Gostei da crítica ácida à postura arrogante, superficial e simplista das pessoas que, baseadas apenas na crença - maniqueísta, por supuesto - se acham donas da verdade absoluta. Aqueles que acreditam piamente estar do lado do bem contra o mal. Pior, julgam-se sabedores desta diferença. São, por exemplo, os da esquerda festiva, caviar ou de botequim. Também o são os crentes do lulo-petismo. Na mesmíssima categoria, os defensores da ditadura militar de 64, dos regimes autoritários (de direita ou de esquerda) e os que não se incomodam com a coexistência de fortunas indecentes com a miséria absoluta. Ou os que professam o discurso racista; os que não se incomodam com a exploração do homem pelo homem; os que crêem que os meios justificam os fins. A crítica, a  meu ver, é a mesma a uns e a outros. Rodrigo Constantino só se ocupa da crítica aos esquerdistas e o faz com fundamento. Elabora um verdadeiro libelo anti-comunista, anti-socialista e contra a esquerda em geral, não se ocupando dos demais donos da verdade da direita. 

Torna-se sectário e cansativo. E junta-se ao time de maniqueístas que tanto critica.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Fantasma de autor: a literatice


LITERATICE



                        "Se eu tivesse que dar um conselho, diria aos mais jovens: - não façam literatice.
O brasileiro é fascinado pelo chocalho da palavra."                                         
Nelson Rodrigues


Não me sai da cabeça o conselho de Nelson Rodrigues aos mais jovens: 
- "não façam literatice". 
Confesso aqui o grande fantasma que me ronda: o medo de desagradar o leitor. Tenho verdadeira paúra de fazer "literatice", de incomodar os outros com uma literatura que seja uma chatice. Literatura..., em termos. É palavra emprestada, é "modo de dizer", pois não acho que esses textos esparsos sejam de fato literatura - são ensaios talvez, despretensiosos na sua maioria. Não só os meus, mas a maioria dos textos que se encontra nos blogs hoje. Alguns são muito bons, excepcionais até. Revelam imensos talentos que vão muito além do simples rabisco, do rascunho de pensamentos, do desabafar do que lhes vai à cabeça. O contraponto, porém - e é bom que assim seja -, é que a maioria dos blogs revela esse delicioso exercício da liberdade de expressão: a vontade de contar uma história, de falar sobre um assunto qualquer, de eventualmente fazer ficção, sem pretender necessariamente ombrear Machado de Assis, o mago do texto, o maestro dos pincéis da escrita. A grande arte machadiana de desenhar uma estória com as palavras, frases, parágrafos, formando páginas de pura fantasia. A arte de pincelar nuances, cores, sombras, mundos paralelos e transportar o leitor em uma nave fantástica para uma viagem imaginária a lugares e situações que lhes pareçam ao mesmo tempo novos, inesperados, deslumbrantes e ainda assim familiares. Uma arte mágica, como todas as artes. Não são as artes todas um exercício de magia, de feitiçaria - se preferirem, de bruxaria? 

Mas voltando à pedra do meu sapato, presumo que não sou o único a ser assombrado por este fantasma. Todo aquele que escreve teme o risco de desagradar, de chatear o próximo. Não que seja possível agradar a todos; ninguém consegue agradar a todos o tempo todo - aliás, nem enganar, já dizia Churchill. Por outro lado, desagradar a todos não tem nada de impossível... Sobretudo se esse "todos" seja um universo formado por um pequeno número de pessoas cujo julgamento nos interessa. Sinto-me pretensioso ao escrever textos sem perguntar se alguém os quer ler; por vezes acho ridículo o propósito de querer entreter o leitor, prender sua atenção, divertí-lo ou simplesmente deixá-lo curioso. A sedução do leitor imaginário é um desafio para quem escreve. Um desafio nada desprezível de superação de si mesmo, da implacável auto-crítica castradora. Fomos aculturados para andar de mãos dadas com a humildade e a modéstia, desde sempre. Mas serão a modéstia e a humildade eficientes propulsoras dos motores da criatividade? Parece que não. Não servirão ambas de filtro que restrinja a maravilhosa megalomania criativa, da loucura desenfreada, da ousadia da expressão livre, solta e desimpedida? 

Esta aí o desafio, superar as amarras internas para expressar livremente. Não é pouco.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Reencontro


Em algum momento entre 2009 e 2010


Entrei naquele escritório instalado num palacete do Jardim Europa, sem saber se o reconheceria, fisicamente. Muito menos se reencontraria seu espírito, sua alma. Desde nossa curta conversa ao telefone, na semana anterior, passava e repassava em minha cabeça o que poderia ter-nos separado. Certa vez, minha mulher encontrou-o casualmente no Shopping, na hora do almoço. Trocaram notícias das famílias; ele deu-lhe um cartão e o telefone de casa, para falar com a Lu. Telefonaram-se, almoçaram juntas, atualizaram as fofocas, as biografias respectivas, das famílias, dos filhos.  Ele ligou, brincalhão como sempre, marcando um almoço para a segunda-feira seguinte. Chegada a segunda, resolvi, ao invés de encontrá-lo no restaurante, como combinado, ir buscá-lo no escritório. Ao deixar meu carro no pátio de estacionamento, fui caminhando até a entrada da casa e percebi que, talvez por defesa, não estava com grandes expectativas para aquele encontro. Muito ao contrário. Calejei-me um pouco na vida após alguns reencontros com velhos amigos que, fora boas lembranças de infância, adolescência ou juventude, não tinham mais nada em comum comigo. Perdia-se o grude, não se reconhecia o olhar. Pessoas que não familiarizávamos mais, reencontros só de corpo presente, caricatura do que já foi. Além disso, eu tinha uma mágoa muito grande com o assunto. Mágoa, não sei se é o termo, talvez seja. Afinal, como é que a gente define  a tristeza de perder o grande amigo, o confidente, aquele com quem você divide o sucesso e o fracasso, que não se constrange em dividir as vergonhas, a história pessoal? Eu acho que tive uns três amigos assim, na vida toda. Uns dois na infância, que nunca mais revi, e ele, o último, encontrado tardiamente na faculdade, no terceiro ou quarto ano da PUC, quando passei para o período noturno. Amigos assim, sem razão ou interesse, sem mais explicação, a gente traz da infância ou não acha mais. E o perdi sem entender nada. Sem saber se tinha errado na mão, na conversa ou na falta dela. Não brigamos. De repente, ele não me atendia mais ao telefone. Tentei falar muitas vezes. Numa delas, ele me atendeu meio apressado, telegráfico, e à minha pergunta sobre o que tinha acontecido, sobre nos vermos dia destes, dizia simplesmente “tá complicado”. Mas porque? “Tá complicado em casa”. E eu insistindo. De repente, deixou escapar: “você é um sacana”. E eu: porque? O que houve? Vamos conversar! Vamos tomar um uísque. Vamos a um bar. E ele: “não dá, tá complicado”. Telefonei ainda várias vezes e nada. Sem contato. É como lembro. Deixei correr, então, respeitando a decisão do amigo e dizendo a mim mesmo que quando desse, ele me ligaria. Ou a gente se cruzaria. Aconteceu alguma merda, mas uma hora a gente senta e conversa. E a vida correu, de fato, cheia de novidades. Estávamos no final de 1992, início de 1993. Em março de 93, fui nomeado para um cargo público, um dos maiores desafios profissionais da vida, que me obrigou a ter uma vida louca, uma agenda mais ainda. Estava a todo momento nos jornais. Ele não podia ignorar! Apesar disso, nenhuma notícia; nem parabéns, nem votos de sucesso, nem oi. Pensei comigo: o negócio é sério...


O tempo foi passando e eu ficando contrariado com a inexplicável ausência de notícias. Orgulhoso, disse a mim mesmo que após tantos telefonemas meus era ele que tinha de ligar. Fui ficando magoado com a história, indignado com a ausência de explicação, sobretudo com a ausência do amigo. Decepção. Ora, que amizade era aquela, que acabava sem que ele, ao menos, me mandasse tomar no cú? Afinal, tínhamos passado muitos pedaços juntos, sempre juntos. Vimos os filhos nascerem (o filho dele, Zé Paulo, nasceu num dia em que jantávamos na casa da sogra dele, onde eles moravam e, de repente, as contrações – fomos os quatro ao Eisntein, no meu carro). Acompanhamos as idas e vindas dos respectivos casamentos, as crises de família, as incertezas profissionais. Não era uma amizade social, nem de casal. Verdade que os casais eram amigos, mas éramos amigos independentemente do estado de espírito de cada casal ou da proximidade das respectivas esposas que, como todas as mulheres, tinham lá seus temperamentos variando ao sabor dos hormônios de plantão, ou daquelas razões super lógicas delas como um olhar atravessado, um comentário sobre a saia ou sobre o serviço do jantar, sei lá. Essas coisas de mulher que não entenderemos jamais. Já tínhamos sobrevivido a tudo isso. Começamos nossas carreiras juntos, acompanhando cada passo, torcendo pelo outro, discutindo, pentelhando, dando palpite nas decisões, se metendo na vida, procurando ajudar. Difícil entender o que houve.

Ao entrar em sua sala, conduzido pela secretária, encontrei-o de pé e reconheci imediatamente o olhar de cima, maroto, direto no olho. Aquele conhecido sorriso contido e eu, sem saber o que fazer, se o abraçava ou lhe dava um murro no peito, estendi-lhe a mão. Sentamos e logo o papo dele que corria solto, redondo, fácil como sempre, conectou-me imediatamente àquela figura que não via há quase dez anos. Que me olha de lado naquela expressão zombeteira, só sua. Confesso que fiquei meio sem jeito, meio sem graça. Não achei o meu personagem nem o meu discurso e fomos logo almoçar, contando, no caminho, fragmentos de notícias da vida de um e do outro. Íamos cercando os assuntos até chegar ao restaurante do Shopping Iguatemi. E o papo continuava, o dele sempre mais fluente que o meu, como sempre. Foi extraordinário vê-lo assim, neste estado. Falante, sensível, seguro de si, vencedor. É o mesmo, mas também é outro. Agregou valor, sabedoria, sobretudo franqueza. Expõe melhor as idéias, acha as palavras, diz-se mais autêntico. Carrega suas fragilidades e fraquezas como troféus. Teve pânico e outras coisas que não sei. Certamente “terapeutou”. Suas abordagens estão mais amplas, mais profundas, mais “autênticas”, como diz. Foi dando notícias por capítulos curtos: o filho Zé Paulo ocupou um bom espaço da conversa. Falei-lhe um pouco dos meus. A história de nossos escritórios tomou a maior parte do tempo. Compreensível que a gente comece por aí. Não falamos das mulheres e dos casamentos (ainda). Sabedoria nossa. Para isso, temos a vida toda e ainda assim o assunto não acaba. O almoço avançando e eu engasgado com a pergunta: “afinal, o que aconteceu?” Poderia sair dali sem a resposta, como de fato saí. Pouco importa. Mas não sem ter feito a pergunta. Ele me falou de outra coisa, de um desequilíbrio nas amizades, de dedicação dele sem correspondência minha. Que me sentiu fechado quando ele estava aberto, exposto. Esta a razão do afastamento. Confesso que fiquei um pouco chocado com a resposta e lhe disse. Ao que retrucou “você sabe do que eu estou falando”. Vasculhei minha fraca memória para ver se deveria saber do que falava e nada achei. Falei então das distâncias que a vida nos impôs, do tempo da França, dos encontros que passaram a ocorrer sempre no grupo de amigos, dos dias difíceis, das turbulências nos casamentos, da correria do trabalho. Ficamos de nos encontrar na segunda-feira seguinte. Talvez sempre às segundas, quem sabe? 

E me flagro no aguardo da segunda-feira.