sábado, 29 de março de 2014

Uma carta de amor

Meu Amor,

Escrevo-lhe esta cartinha depois de um dia atribulado. Mando notícia do lado de cá do oceano, esperando que esta a encontre, como de hábito, bonita, elegante, discretamente exuberante.
Imaginei outro dia a hipótese de perdê-la. Vivi, por um instante, a perspectiva de não a ter mais na minha vida. Não contar mais com a sua presença nos meus dias, não ouvir mais o seu bom-dia, não sentir mais as emoções de seu espírito aceso e sua alma exigente; não ter mais o desafio de enfrentar e compreender suas contradições femininas, seus humores, suas alegrias e tristezas. Gelou-me sobretudo a possibilidade não deitar mais meus olhos nos seus, ouvir sua voz, sentir seu cheiro e perder nossos encontros, furtados desse cotidiano tão tedioso. Um tempo parênteses, tempo aspas, tempo mágico, suspenso da vida e apartado do mundo. Um tempo só nosso.
Imaginei, horrorizado, minha vida sem você. Uma vida com o coração em frangalhos, pranteando a sua ausência, procurando coragem para enfrentar uma batalha perdida, solitária. Pensei na possibilidade de viver bem sem você. Afinal, não nasci enamorado por você, apesar de achar que vou morrer neste estado de prostração apaixonada. 
Lembrei então que você entrou na minha vida como um pé de vento, devagarinho, como quem não quer nada - instalou-se e bagunçou tudo. Começou dando-me uma atenção que eu não conhecia, enfeitiçou-me. Fomos conversando sobre nossas vidas e vi-me encantado com a sua. Fui me apegando a você aos poucos, ao fato de você, outrora contida e fechada, ter me aberto aos poucos frestas e cantos. Quando dei por mim, galopava em emoções, completa e perdidamente apaixonado.
Você desbravou um vasto latifúndio no meu pobre coração.
Percebi então que ao não tê-la mais em minha vida, dela só restariam estilhaços espalhados pelo chão, pelos cantos, pelos ralos. Pedaços a serem juntados e recompostos talvez, quem sabe, um dia. Até lá, encarnaria o personagem da música de fossa da Maísa, para quem o mundo caiu.
Que alívio não ter se desfeito esse nosso mundo suspenso no tempo e no espaço.

"Para terminar, 
Amor assinarei, 
do sempre, sempre teu,


Erasmo"
...........................................
Todas as cartas de amor…
                                 Fernando Pessoa

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)



sábado, 22 de março de 2014

Acredite se quiser

Acredite se quiser

Depois de anos objeto de uma paixão dedicada, leal, fiel, declarada e, sobretudo, devota - uma devoção renitente, consistente, cozida em fogo lento -, Mariana indaga, sentada, tomando o picolé de coco que ele lhe havia comprado:

- Afinal, Bento, o que você quer de mim?

Ele pensou bem, acreditou naquela oportunidade única de conquistá-la finalmente, agora pelo poder da palavra, da poesia, acreditou naquele momento que poderia ser de arrebatamento do coração da moça e tirou do bolso seu poeminha num papel dobrado, escrito há tempos. E declamou, poeticamente:

"Eu quero o seu riso e o seu choro,
Quero suas alegrias e suas tristezas,
Quero ver em seus olhos doces a sua paixão, 
Quero os seus beijos, seus cheiros, seus toques, seus choques; 
Só não quero o grande amor que nunca tive"

Disse isso com os olhos rasos, a emoção espremida vinda do fundo da alma e ouve de Mariana, em tom de consolo:

- É normal que você sinta isso, Bento. As pessoas apaixonadas se sentem assim, mesmo... 

Foi o que ela disse, com estas palavras, acredite se quiser. 

E o disse sem corar, sem brincar, habituada ao conforto da fiel devoção de Bento. Num repente furioso com aquele desdém que achou o cúmulo, Bento apertou-lhe violentamente o pescoço, até ouvir um estalo. Saiu dali caminhando leve, deixando Mariana com a cabeça caída para o lado, o picolé derretendo em suas mãos, pingando na saia, sentadinha imóvel naquele banco da praça da cidadezinha do interior, num fim de tarde preguiçoso de domingo.


Acredite se quiser.





Imaginei autrement

Imaginei que a vida fosse longa, infinita até, 
que todos fossem iguais,
que as pessoas fossem boas,
que amassem umas às outras,
que tivessem consciência do bem e do mal, 
que a consciência do bem evitasse o mal; 
que o mal fosse necessário, mas não prevalecesse,
que existissem relações desinteressadas,
que a inteligência abundasse,
que burrice tivesse jeito (e limite),
que tibieza de caráter tivesse conserto,
que a natureza fosse apenas boa e generosa, 
que a verdade existisse (e triunfasse), 
que houvesse o certo e o errado,
que o fato fosse mais importante que a versão, 
que a justiça fosse feita, 
que a democracia fosse eficiente,
que o amor fosse lindo, sempre, 
que Deus existisse, ouvisse, castigasse e perdoasse,
que o Diabo também existisse, subordinado a Deus, 
que para tudo houvesse cura, 
que tudo se resolvesse, 
que tudo acabasse bem.

Imaginei que pudesse ser assim.

Mas assim não é.

Imaginei autrement

Patologia dos arrogantes

Arrogância é uma das características de pessoas que tiveram sucesso no bairro e se acham donas do mundo, da verdade e das pessoas do seu entorno. Você as conhece. Elas tem um ego complicado.

Algumas delas são egocentradas, olham o mundo tendo apenas a sua pessoa como a principal, se não a única referência. Uma bússola que aponta ao próprio umbigo. Desconfiadas, defendidas, não raro vivem delírios persecutórios e por vezes sofrem de pseudo-clarividência - julgam saber o que os outros pensam, querem, sentem. Não hesitam em agredir ao menor sinal de ameaça ao reino do seu ego encastelado.

Outras são apenas egoístas, insaciáveis consumidoras individualistas que querem tudo para si. São as mais comuns e, a rigor, as menos danosas à humanidade - são as ambiciosas de plantão, com esta qualidade que vem sendo tolerada e até cultivada em nossos dias. Todos somos pessoas egoístas, em certa medida. As pessoas arrogantes só exacerbam.

Por fim, existem os ególatras, os que idolatram o próprio ego. Incapazes de amar, o único motivador que lhes move é o self. Narcisistas por natureza, o que  mais lhes importa na vida é a própria imagem que é a sua primeira e, por vezes, a sua única referência. Tendem a relacionar-se apenas com admiradores, bajuladores, aduladores - pelos quais tem nítido desprezo - cidadãos de 2a classe. Almejam séquitos de fãs e fogem da crítica como o diabo da cruz. Podem ser histriônicas ou mais comedidas. Mas nunca aceitam a paridade com o próximo. Estão sempre acima.

Você reconhece alguma delas à sua volta? Pertencem à enfermaria que você usualmente frequenta? Trate-as com cuidado. Pessoas assim podem morder e machucar os incautos.

domingo, 16 de março de 2014

Enorme decepção

Eu a entrevi no ônibus, a caminho da faculdade. Subiu duas paradas após a minha. O ônibus lotado, o calor da manhã apenas começando. Só a vi de relance e curioso fiquei para saber como ela era. O brilho e a cor do seus abundantes cabelos levemente cacheados chamaram minha atenção. Um castanho claro acobreado, com mechas arruivadas, num corte reto batendo um palmo acima da cintura. Lindos cabelos. Só faltava ser bonita também, pensei. Mas não consegui ver seu rosto até descermos juntos no ponto da faculdade, que fervilhava com a volta às aulas naquele verão. Ali percebi que era realmente bonita. Faltava checar detalhes: o sorriso, os dentes, as orelhas, mas o conjunto, de longe, agradava. Não tinha a beleza explosiva das loiras nem a agressiva das morenas. Era uma beleza discreta, harmoniosa, que não forçava passagem, passava apenas. A pele, muito branca com sardas claras, formava uma estampa delicadamente rendada. 

Vestia uma calça jeans e uma camisa azul larga, por cima da calça, não permitindo ver seus contornos com nitidez. Parecia mais para o "cheinha". Os olhos eram amarelo-claros, grandes e lindos. Fui seguindo-a, enfeitiçado pelo balanço do quadril e do movimento dos cabelos enquanto andava. Tínhamos uns 5 minutos de caminhada nos corredores antes de chegar às classes e aproveitei cada um deles na caminhada. Apaixonei-me pela ruivinha de imediato. Não sabia qual o seu curso, só faltava ser uma nova colega de classe! Mas não, desviou-se para a rampa da pedagogia; continuei em direção à minha classe. 

No intervalo das 10.20h, desci à cafeteria apressado, procurando-a com sofreguidão. Aquilo fervilhava de gente. Era impossível achar alguém ali. Pedi ao caixa um expresso e um pão de queijo e, após 10 minutos de espera na fila, fui disputar um atendente com uma turba de estudantes esfomeados e afllitos. Um calor insuportável, uma gritaria ensurdecedora. Quando dou por mim, estou ao lado dela. Era uns 30 centímetros mais baixa do que eu. Dava pulinhos, agastada, tentando ser vista por algum atendente. Não pensei duas vezes e ofereci-me, sorrindo: "quer que eu peça o seu pedido junto com o meu?". De início olhou-me um pouco assustada, mas tomada pela cumplicidade juvenil e até um pouco aliviada, passou-me o seu ticket dizendo:

- Ai! Obrigada, quero sim, isso aqui está impossível para uma baixinha como eu. Eu queria um suco de pêssego e um sanduíche natural, por favor. 

Meu coração disparou, fantasiando grandes possibilidades vindas daquele golpe de sorte. Disse-lhe para esperar na mureta que eu levaria tudo a ela. Excitado com a oportunidade e cheio da energia que só o amor pode dar, virei um leão naquele balcão e gritei o pedido com tal força que o atendente parou e olhou-me assustado. Enfiei os pedidos em sua mão com uma nota de 5 Reais e ele serviu-me logo em seguida, entregando-me dois sacos brancos de papel com o sanduíche dela, meu pão de queijo e a latinha de suco.

Dirigi-me à mureta onde aquela ruivinha linda estava e entreguei-lhe seu sanduíche e a lata de suco. Ela sorriu-me lindamente, agradecendo a gentileza. Pôs tudo em cima da mureta e, com as mãozinhas pequenas levantou aqueles cabelos maravilhosos, prendendo-os num rabo de cavalo. Então reparei nas suas orelhas - enormes, desproporcionais, daquelas de açougueiro italiano. Ainda por cima, de abano, coitadinha. Tive um baque sério. Quase tropecei. Fiquei sem graça e despedi-me apressadamente, tomando o rumo da minha classe com meu pão de queijo morno no saquinho, frustrado, macambúzio, desgraçado. 

"Putz!" disse em voz baixa, "era tão bonitinha..."





domingo, 23 de fevereiro de 2014

Dez semanas em Londres

Abril de 2011

Após uma série de sustos e percalços um tanto sérios na vida, resolvi propor - à minha mulher e a mim mesmo - uma temporada de afastamento em algum lugar. Um período sabático de uns 12 meses, pensei, seria ideal. Estava "à bout", como dizem os franceses. Esgotado, sem rumo, com a bússola interna parecendo uma pomba gira. Sentia-me levado pelos acontecimentos e empurrando a vida com a barriga que, aliás, andava bem inchada e em ritmo de crescimento acelerado. 

Pensei em vários destinos para justificar o afastamento desse mundinho nosso de cada dia: um curso em Harvard, um período na Provence ou mesmo uma temporada em Paris, onde minha mulher, sofisticada Chef nas horas vagas, faria o curso do Cordon Bleu, seu sonho de consumo. Curioso de cozinha, eu filaria algumas aulas e procuraria algo que me interessasse, como um bom curso de vinhos ou de política ou de filosofia.

Planejada inicialmente para um ano, a viagem foi sendo reduzida paulatinamente até chegar 3 meses que viraram 10 semanas. Foi o que pude fazer. Quem tem coragem para se afastar de seu próprio escritório durante um longo período? Como disse um amigo, um longo sabático tende a implodir algumas pontes... Não era bem essa a minha intenção.

Ainda duvidando do acerto da decisão, decidi arriscar. Eu precisava de um tempo para repensar a vida e isso me parecia urgente. Precisava me afastar do meu  dia a dia. E fui prontamente apoiado pelos meus principais "stakeholders": minha mulher e meu principal sócio.

A escolha do local e do que fazer foi sendo pensada, refletida  e questionada. Continuei procurando algo interessante em Harvard e pensando na querida França, onde tinha morado 4 anos. Opções confortáveis do ponto de vista de justificativa à corte e a mim mesmo. Mas havia algo em ambos os destinos que não me caía bem e eu não sabia dizer o que era. Lembrei que alguns meses antes, tínhamos passado uns dias em Londres, cidade de péssima lembrança minha. Fomos lá por insistência do meu querido irmão que convidou-me a revisitar um preconceito que eu tinha com a cidade. Por lá ele e eu havíamos passado uma temporada de uns 30 dias, no verão de 1978, para um curso intensivo de inglês. O tenebroso inverno em Londres deixou péssimas lembranças  no estudante duro. Guardei na memória uma cidade escura, acinzentada, fria, úmida, dura e onde se comia muito mal. Os dias clareavam depois das 9 da manhã e escureciam antes das 4.30 da tarde. Como ficávamos fechados o dia inteiro na escola, só víamos a luz do dia quando saíamos para almoçar nos pubs próximos, onde experimentei a famosa "kidney pie". Ali cortei definitivamente relações com a culinária inglesa. Em resumo, um horror.

Nessa visita mais recente, tudo estava diferente e percebi que meu irmão tinha toda razão: conheci outra Londres: limpa, agradável, com uma vida cultural pujante e uma série de ótimos restaurantes, além dos museus, da cultura de uma educação cerimoniosa que revela um venerado respeito ao outro. Nada disso batia com a memória juvenil do estudante que passou frio e fome ali. Enamorei-me da cidade. A idéia de instalarmo-nos naquela cidade atraiu-me justamente por não ter nenhuma raiz ali, o que me distanciaria ainda mais do meu caldeirão de demandas, expectativas, frustrações e estresse.

E o que fazer em Londres? Foi aí que, antes mesmo da partida, percebi um resultado positivo da minha decisão relativa ao período sabático. Perguntei-me: porque eu precisaria de uma justificativa para afastar-me? Para quem eu teria de me justificar? E dei-me conta que não estava a fim de fazer curso nenhum. Eu estava é esgotado, não queria fazer nada além de afastar-me e deixar correr o tempo para pensar na vida. E justamente essa obrigação de justificar-me é que estava me incomodando nas opções Harvard e Paris. Não eram opções autênticas; eram uma desculpa esfarrapada que me gerariam um sacrifício desnecessário. Eu não precisava de justificativa, sobretudo para mim mesmo. E assumi: vou bundar com o Frederico, vou fazer o que me der na telha - lá vejo o que há para fazer. E se não me der bem em Londres, mudo para Paris, que fica a 2 horas de trem dali ou outro lugar qualquer. Senti-me livre e esta sensação agradou-me. E assim alugamos um flat ótimo, na Sloane Avenue, em Chelsea - maravilhosa localização a um preço razoável (nosso Real à época estava fortíssimo). Ou seja, tudo conspirou para que desse certo.

Fomos assim com o só propósito de passar os dias em Londres. Livres. Vagueando pela cidade e por nós mesmos. Um amigo perguntou-me: mas você vai levar a sua mulher?? Ao que eu prontamente respondi: lógico, até onde sei não vem dela a crise que enfrentava. A crise poderia até afetar o relacionamento do casal, mas o casal não era o epicentro da mesma. Pelo contrário, minha mulher tem sido uma grande companheira de vida e passava, de seu lado, por suas próprias crises, naturais das fases femininas e perrengues da vida que tinha vivenciado ultimamente. Estávamos na beira de enfrentar a tal da "síndrome do ninho vazio", na medida em que nossos filhos planejavam sair definitivamente de casa.

Em Londres tivemos uma vida de bairro, fazíamos as compras no mercadinho em frente ao flat, mandávamos lavar as roupas na lavanderia também em frente, preparávamos as próprias refeições, e vivíamos um dia de cada vez, da maneira que nos aprouvesse. Com muitas permissões, que os ingleses chamam de "indulgencies". 

Não é muito chato não fazer nada? Não ter programação? Talvez para alguns seja um pesadelo. No nosso caso, o programa era justamente não ter programação, deixar correr os dias, viver o dia a dia, ver o tempo passar, fazer o que desse vontade, aproveitar as oportunidades dos dias corridos. 

Não fui a Londres procurar nada especificamente. Eu só queria um tempo, uma distância, olhar o todo de uma nova perspectiva. Viria o que viesse. Eu não estava à cata da luz salvadora nem do mapa do Paraíso. Não fui procurar o caminho dos monges do Tibet, nem uma revelação mística. Não fui procurar Deus. Não programei uma visita aos velhos sábios da India ou do Himalaia. Nem fiz de Londres uma Fátima. Não fiz dali o meu caminho de Santiago.

Claro que de alguma forma eu esperava clarear minha cabeça. Afastar para enxergar melhor. Refocar. Também não posso negar que estava à procura do meu eixo para encontrar a minha própria identidade, confuso que estava com os diversos papéis que vinha desempenhando até então. Papel de pai, de filho, de marido, de advogado, de professor, de membro da sociedade ao meu redor, etc. Onde estava o meu "self" nisso tudo? Qual era aquele que conectava todos os papéis? No correr da vida entregamos um pouco de nós a cada um desses papéis e, após,  cada um deles integra-se a nós. Eu a eles emprestei um tanto de mim e deles agreguei outro tanto. Mas tudo andava um pouco misturado, enrolado, de ponta cabeça. Os chacoalhos por que passei me levaram a um questionamento de valores e de direcionamento de vida. Estava com dificuldade em me situar. Vivia uma certa crise de identidade, uma crise que, percebi mais tarde, foi o início da minha passagem da vida adulta à fase mais madura em que me encontro. Foi o que me pareceu, sei lá. 

Por outro lado, nossos filhos estavam saindo de casa e um novo dimensionamento da vida do casal se impunha. Um novo olhar, um novo pacto para com a vida que tínhamos diante de nós. É um conhecido clichê essa conversa de que, ao passarmos pela crise da meia idade, precisamos procurar novos desafios, novos projetos, novos objetivos. Qualquer orelha de livro de auto-ajuda tem essa fórmula "secretíssima", essa panacéia universal. E as respostas que surgem  imediatamente são outros clichês, mais simplistas ainda. Sugestões pueris, bestas, completamente descontextualizadas. Praticar Iôôga? Colaborar numa ONG? Abrir um restaurante? Trocar a mulher por outra mais nova? Frequentar um curso de história da arte? É sempre fácil a resposta de quem olha de fora e procura racionalizar a vida alheia com a ladainha: "é preciso traçar novos objetivos, novas metas, novos projetos, "nhem nhem nhem", "trá-lá-lá". É resposta pronta, de prateleira. É tão fácil quanto criticar a educação dos filhos do vizinho ou resolver o problema enfrentado pelo casal amigo. De longe, tudo parece óbvio; mas não é.

Só posso falar de mim e digo que comigo as coisas não se passaram dessa maneira. Não foi nada disso. E também não deixou de ser. Primeira coisa: não dá para procurar algo que não se sabe o que é. Não dá para acreditar numa lista mágica de hipóteses feita por algum mestre "savant" do Himalaia ou, pior, algum professor de uma universidade americana. Não dá para se guiar por algum estudo publicado recentemente no Boston Journal of Human Sciences. Isso não se dá dessa forma planejada, racional, objetiva. Do tipo "arranje uma ocupação qualquer e não encha mais o saco". Segunda coisa: ainda que procurasse as saídas acima, no fundo o meu problema não era falta do que fazer. Percebi que o momento que eu vivenciava ali teria de ser enfrentado, encarado, compreendido e assimilado. E o meu reflexo instintivo para encarar o momento foi o de afastar-me: do meu dia a dia, das pessoas, dos problemas, dos caminhos rotineiros que nos aprisionam. Daí a procura de passar um razoável período distante de tudo, permitindo um "deixar vir", venha o que vier. Porque não me dar ao luxo? Mudando de cultura, de língua, de endereço, eu refrescaria e revisitaria minhas impressões, opiniões, valores, etc. Isso talvez me ajudasse a encontrar uma nova perspectiva. 

E assim partimos a Londres, para voltar dali a dez semanas. E o que aconteceu? Absolutamente nada. Nenhuma revelação mística, nenhuma luz divina se abateu sobre nós. Nenhum anjo me cochichou um recado divino. Nem um santo me revelou o caminho do paraíso.

Entretanto, com o passar dos dias, com o correr das semanas, nossa perspectiva de tempo foi se alterando. Isso foi precioso. O tempo era nosso, fazíamos o que queríamos, quando queríamos. Não tínhamos compromissos familiares, sociais ou profissionais; não tínhamos horário, não tínhamos qualquer outra obrigação. Não estamos falando aqui de um fim de semana ou de 15 dias de férias - estamos tratando de uma outra medida, bem diferente, de ter à frente de si 10 semanas de liberdade, de ócio. Essa retomada do domínio do tempo nos ajudou a perceber bem melhor o que é e o que não é realmente importante. Para a vida que tínhamos ali e para a nossa vida em geral.

Vivíamos num apartamento de quarto e sala e percebemos que não precisávamos muito mais do que aquilo para viver bem. Com um pouco mais, muito pouco mesmo, poderíamos ter ali todo o conforto que quiséssemos e mais a liberdade de ser e de se locomover sem carregar uma tralha pesada. O passar do tempo e o morar de forma mais simples nos fez chegar mais perto do essencial. E perceber que o essencial é simples. É básico. É funcional. O passar do tempo e a distância nos fez perceber bem mais claramente o quanto nos toma de tempo e energia o preenchimento de obrigações sociais e profissionais absolutamente dispensáveis. O passar do tempo e a simplicidade da vida que ali vivemos nos mostrou o quanto é dispensável ter coisas para ser. Taí outro clichê que se repete com frequência, mas não se experimenta. E reparamos no quanto acumulamos de objetos inúteis, de preocupações inúteis, de ansiedades inúteis, de obrigações inúteis, de gastos inúteis, de consumos inúteis. Aquele passar do tempo, aquela distância e a vivência do essencial nos mostrou isso: quanto mais nos ocupamos do inútil, do dispensável, do acessório, menos tratamos do essencial.

E o essencial é o simples, é o básico, é o fundamental. "O simples é o último estágio da sofisticação", disse Leonardo, o da Vinci. Simples são os amigos, os amores, as risadas, o construir, o dividir, o rir e o chorar. O resto é complicado e, a rigor, secundário.

Resumindo: Londres não revelou-me nenhum segredo místico, nem apontou-me o caminho do Céu ou mostrou-me a luz divina. Londres deixou-me perceber que é preciso estar atento ao essencial, que se deve pensar simples e que resolver as coisas de forma simples é o melhor caminho. Ainda que as coisas sejam complexas.

No fim das contas, Londres me transformou. E muito.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A esquerda caviar, festiva e de botequim



Acabo de ler livro de Rodrigo Constantino, "Esquerda caviar"(Record, Rio-SP, 2013, 428 p.). Comprei-o num impulso, ao vê-lo sobre uma pilha na Livraria Cultura; fiquei curioso e não resisti. Se gostei do livro? Não exatamente. Recomendo a leitura? Não estou aqui para isso; só posso dizer se gostei ou não da leitura e o porquê.

O livro tem muitas passagens divertidas com as quais me identifico. Vou citar duas delas, mas há inúmeras:

Sobre a preguiça mental : "Não é preciso estudar a fundo, pesquisar, refletir e pensar sobre como resolver de verdade os problemas. Basta aderir a um grupo, repetir meia dúzia de slogans bonitos e usar palavras mágicas como "justiça social", "tolerância", "diversidade", "sustentabilidade" e "paz" que você automaticamente ganha o respeito de muitos bobalhões e posa como alguém cheio de opiniões sobre os mais variados assuntos" (p. 48)

E ainda:

"O sujeito pega a sua viola, acende seu cigarro de maconha, canta músicas românticas de Lennon e Bob Dylan, e jura para si mesmo que fez mais pela humanidade do que os empreededores que produzem riqueza e empregos para a sociedade. Garçom, mais uma cerveja!" (p. 50)

Gostei da crítica ácida à postura arrogante, superficial e simplista das pessoas que, baseadas apenas na crença - maniqueísta, por supuesto - se acham donas da verdade absoluta. Aqueles que acreditam piamente estar do lado do bem contra o mal. Pior, julgam-se sabedores desta diferença. São, por exemplo, os da esquerda festiva, caviar ou de botequim. Também o são os crentes do lulo-petismo. Na mesmíssima categoria, os defensores da ditadura militar de 64, dos regimes autoritários (de direita ou de esquerda) e os que não se incomodam com a coexistência de fortunas indecentes com a miséria absoluta. Ou os que professam o discurso racista; os que não se incomodam com a exploração do homem pelo homem; os que crêem que os meios justificam os fins. A crítica, a  meu ver, é a mesma a uns e a outros. Rodrigo Constantino só se ocupa da crítica aos esquerdistas e o faz com fundamento. Elabora um verdadeiro libelo anti-comunista, anti-socialista e contra a esquerda em geral, não se ocupando dos demais donos da verdade da direita. 

Torna-se sectário e cansativo. E junta-se ao time de maniqueístas que tanto critica.