Meu Amor,
Escrevo-lhe esta cartinha depois de um dia atribulado. Mando
notícia do lado de cá do oceano, esperando que esta a encontre, como de hábito, bonita,
elegante, discretamente exuberante.
Imaginei outro dia a hipótese de perdê-la. Vivi, por um instante, a perspectiva de não a ter mais na minha vida. Não contar mais com a sua presença nos meus dias, não ouvir mais o seu bom-dia, não sentir mais as emoções de seu
espírito aceso e sua alma exigente; não ter mais o desafio de enfrentar e compreender suas contradições
femininas, seus humores, suas alegrias e tristezas. Gelou-me sobretudo a possibilidade não deitar mais meus olhos nos
seus, ouvir sua voz, sentir seu cheiro e perder nossos encontros, furtados desse cotidiano tão tedioso. Um tempo parênteses, tempo aspas, tempo mágico, suspenso da vida e apartado do mundo. Um tempo só nosso.
Imaginei, horrorizado, minha vida sem você. Uma vida com o coração em frangalhos, pranteando a sua ausência, procurando coragem para enfrentar uma batalha perdida, solitária. Pensei na possibilidade de viver bem sem você. Afinal,
não nasci enamorado por você, apesar de achar que vou morrer neste estado de prostração apaixonada.
Lembrei então que você entrou na minha vida como um pé de vento, devagarinho, como quem não quer nada - instalou-se e bagunçou tudo. Começou dando-me uma atenção que eu não conhecia, enfeitiçou-me. Fomos conversando sobre nossas vidas e vi-me encantado com a sua. Fui me apegando a você aos poucos, ao fato de você, outrora contida e fechada, ter me
aberto aos poucos frestas e cantos. Quando dei por mim, galopava em emoções, completa e
perdidamente apaixonado.
Você desbravou um vasto latifúndio no meu pobre coração.
Você desbravou um vasto latifúndio no meu pobre coração.
Percebi então que ao não tê-la mais em minha vida, dela só restariam estilhaços espalhados pelo chão, pelos cantos, pelos ralos. Pedaços a serem juntados e recompostos talvez, quem sabe, um dia. Até lá, encarnaria o personagem da música de fossa da Maísa, para quem o mundo caiu.
Que alívio não ter se desfeito esse nosso mundo suspenso no tempo e no espaço.
Que alívio não ter se desfeito esse nosso mundo suspenso no tempo e no espaço.
"Para terminar,
Amor assinarei,
do sempre, sempre teu,
Amor assinarei,
do sempre, sempre teu,
Erasmo"
...........................................
...........................................
Todas as cartas de amor…
Fernando Pessoa
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)