sábado, 22 de novembro de 2014

Da tal felicidade

Da tal felicidade

Há pouco li um texto gostosa e talentosamente escrito sobre a simplicidade de aceitar a felicidade que tromba conosco a cada dia, ou quase. Bem que eu gostaria de encontrar a tal felicidade onde estou e no exato momento em que a quero. Mas existe mesmo essa tal felicidade? Vende-se na farmácia em comprimidos, gotas ou solução injetável? Estaria ela na tenda da bruxa, no terreiro de candomblé, no banco da igreja, na sala de massagem, na chegada de algo muito desejado? Estará nos braços da amada, no colo da mãe, no gesto de aprovação do pai, no  olhar carinhoso do filho? 

Está sim, em tudo isso. São esses rápidos momentos de forte emoção que nos trazem essa sensação de plenitude, de encontro, de satisfação com a vida. É preciso reconhecer e aceitar esses momentos mágicos como mágicos e guardá-los no cofrinho do coração para contrapô-los àqueles das perdas, das amarguras, das dores solitárias que nos assaltam de quando em vez. Vivi outro dia um desses momentos de intensa emoção numa simples conversa com meus filhos em torno de uma mesa de churrascaria. Percebi, realizado, que estava ali diante de dois bons homens, de caráter, talento, personalidade e boa energia. Encontrei meu momento de plenitude, de encontro com uma missão da vida. E me emocionei.

domingo, 24 de agosto de 2014

A emoção na memória do vinho

 Memória do vinho

 Gosto não se discute; lamenta-se, diz o ditado. 

 Nelson Rodrigues dizia que a unanimidade é burra. Tão burra quanto as certezas absolutas de um jovem, tão besta quanto a assertividade do militante radical, tão estúpida quanto a arrogância do ignorante. Em quase tudo o que diz respeito à nossa percepção sensorial, há discussão, diferenças de pontos de vista, memórias desencontradas, díspares, contraditórias.

 Sobretudo sobre o gosto. Gosto depende de referência. Ou melhor, das referências. Se o sujeito nunca experimentou uma laranja e uma mexerica, não terá repertório para distinguir uma de outra. Se não foi apresentado aos pintores impressionistas, não poderá diferenciá-los dos renascentistas ou dos contemporâneos. Que o diga Brillat Savarin.

 O mundo do vinho não é diferente. Pode-se estudar vinho e aprender de cor as regiões, os tipos, os produtores, as variedades das uvas e as características organolépticas de cada vinho. Pode-se ler e memorizar suas detalhadas descrições, feitas pelos "experts". Porém, sem experimentar cada um, o conhecimento é meramente intelectual, enciclopédico; o sujeito não tem condição de avaliar um vinho apenas porque "ouviu dizer" que ele tem boa acidez e que é agradável no pálato. Pode repetir as opiniões de quem o fez, apenas. Como um papagaio.

Muito bem. O chamado "gosto sofisticado", - aquele capaz de identificar um grande número de nuances -, forma-se de uma vivência atenta, de uma larga experiência que se acumula em camadas que se sedimentam na memória e no coração de quem tem muitos pontos de referência e de comparação. A memória, nesse caso, é um misto de sensações gustativas (aromas, cores, sensações de boca como acidez, amargor, doçura, etc) associadas a observações de caráter racional (nome do produtor, região, safra, etc) proporcionadas pela experiência vivida num copo daquele vinho. E acrescento: num determinado lugar, em companhia de determinada pessoa, acompanhando um determinado prato e, finalmente, vivendo um determinado estado de espírito. Não se trata, portanto, da memória de um conhecimento linear, mas de uma "experiência", um misto de sensações olfativas, gustativas e sociais, associadas a algumas referências de dados frios como safra, ano, preço, produtor, etc.

 Ora, se esse conhecimento vem do conjuntos de experiências vividas, é certo que um jovem sommelier é uma contradição em termos, um oxímoro. Se é jovem, ainda que talentoso, de sensibilidade aguçada e memória privilegiada, não teve ainda a oportunidade de criar cultura, de degustar vinhos o suficiente das diversas safras das diversas regiões do planeta. E há muitas variações, há inúmeras. Lançam-se novos vinhos todos os dias. Assim, um jovem talentoso e curioso será sempre, e apenas, um projeto de sommelier. Um verdadeiro sommelier precisa de muitos anos e muitos litros de vinho para formar as camadas de vivência necessárias a um profissional desse ramo. Além, é claro, de bom nariz, boa boca e a tal da privilegiada memória gustativa. Essa capacidade de identificar (e nomear) os aromas com alguma clareza, que poucas pessoas tem.

Nós, humanos, evoluímos a espécie atrofiando uma série de percepções sensoriais, por não serem mais essenciais à nossa sobrevivência. O olfato é uma delas. Um cão sente o cheiro de uma cadela no cio a três quilômetros de distancia. Cada um de nós tem seu próprio odor e reconhece o dos próximos, apesar de mascarado pelos perfumes, cremes, sabonetes, shampoos, desodorantes que usamos todos os dias. Ou seja, criamos uma confusão olfativa para nós mesmos. Ao usarmos perfumes, criamos disfarces do nosso próprio odor, damos a ele uma vestimenta, escamoteando nossa identidade original. Isso mostra o quanto deixou de ser importante o olfato para a nossa sobrevivência.

 Claro que os amantes ainda se enebriam com os odores dos amados. Claro que ainda rejeitamos o leite talhado e o alimento estragado. Mas perdemos muito da confiança que já tivemos no passado no sentido do olfato. O ser humano concentrou suas percepções no sentido visual.

 Mas voltemos a um curioso fato no mundo do vinho, que é o momento em que se experimenta o mesmo. Dependendo da companhia, do lugar, da temperatura, da fase da vida e do humor vividos naquele instante, entre muitos outros fatores, gostamos mais ou menos do vinho que experimentamos. Fazemos associações mais positivas ou negativas. As diversas emoções se misturam às percepções sensoriais. Quantas vezes não nos deliciamos com um vinho tomado numa viagem de férias e, ao abrir o mesmo em casa, para onde voltamos com uma garrafa debaixo do braço, percebemos que não era tão fantástico assim? É que aquela primeira experiência foi influenciada pela emoção da beleza do lugar, pelo clima, pelo momento especial que então vivíamos e influenciou, assim, nossa percepção de uma experiência gostosa, inesquecível. Esse conjunto de emoções associado a sensações não se reproduz facilmente. Por isso diz-se que a melhor adega não é a física - mas sim aquela que está na memória das pessoas. E certamente não é uma memória técnica, acadêmica. É uma memória emocional, que se desenvolve e engrandece com a companhia de com quem se partilha aquele momento. 

 Por isso duvido das notas do Robert Parker, Wine Expectator e outros. Não se pode acreditar em opiniões pretensamente "técnicas" e isentas sobre um vinho. É preciso dar o devido desconto (cultural, emotivo e social) a tais avaliações. E não esquecer que não interessa apenas o que se bebe, mas com quem se bebe e em que condições.

Para que o vinho não azede.



domingo, 17 de agosto de 2014

Censura, esta velha ranheta

Censura

 Escrevo porque não resisto. É uma necessidade. Nem sempre é o assunto que me move. Boa parte das vezes é apenas o meio de encontrar um canal com o cara interno; e dali surgem os mais diversos resultados, de barbaridades a campos floridos. Perdoem-me as barbaridades, que fiquem os campos floridos.

 Sinto-me censurado internamente, no momento. Falar sobre o que, nesta condição? Sobre a dificuldade de dizer o que quero? Sobre a censura que impede a conversa? Sim, sobre esta severa senhora: a censura. Talvez sobre amor e censura... não! Não existe isso de amor e censura, vamos evitar esta armadilha para não acabar falando de amor.

 A censura é parte integrante do ser humano; isto é um fato. A censura é uma forma de controle social, de exercício de poder, uma forma eficiente de imposição de valores. O ser humano julga, aprova, reprova ou fica indiferente diante dos acontecimentos. Assim, sempre haverá quem nos censure, por isso ou por aquilo. Se não são os outros, somos nós mesmos. A censura é uma forma de "enquadrar". Pela roupa, pelo corte de cabelo, pela escolha do prato, pela opção sexual, pela opção política, pelos vícios, pelos deslizes, pelos erros, pelo comportamento e assim por diante. 

 E esta senhora se manifesta de diversas formas: o julgamento alheio, a fofoca, a maledicência.

 Desta severa senhora, não escapamos. Portanto convivamos com ela, tratêmo-la bem para mantê-la assim mansinha, sob controle e, se possível, distraída para nos dar espaço. Para que possamos nos divertir no quintal da liberdade, vigiado por esta velha ranheta.

 Só resta a liberdade de dizer. Sem ela, o silêncio.



domingo, 10 de agosto de 2014

Mulher madura

Mulher Madura

Donas de uma sensibilidade ímpar e uma intuição monstro, elas ouvem e lêem as entrelinhas da voz dos seus filhos, dos seus homens, dos seus amantes; enxergam suas feridas no escuro, sentem suas dores e angústias a enormes distâncias. São assim antenadas as mulheres maduras. Querem proteger, preservar, alimentar, cuidar dos seus. Rasgam o coração, descem do pedestal, esgarçam os tecidos dos nervos expondo-os aos perigos das intempéries para manter-se no domínio. 

Na conquista, transformam-se, pintam-se, perfumam-se, vestem-se como se se despissem, sobem nos saltos mais altos e incômodos para realçar a postura e tornam-se divas, enfeitiçam, ensurdecem e enlouquecem quem quiserem. Com o olhar apenas, com trejeito, com o mexer nos cabelos, com o roçar dos dedos, com a brisa dos cílios, o movimento dos lábios e o tom macio da voz. Advinham os desejos daqueles que amam, antecipam-lhes a querência, os movimentos, as direções. Adaptam-se às temperaturas dos humores de seus homens e, à luz de velas, acendem-lhes os fogos da paixão e da loucura. Assim são as feiticeiras maduras quando amam. Tornam-se bruxas que amam com profundidade, com brutalidade, com fatalidade, com totalidade. E sabem feitiços, bruxarias, truques, trabalhos, o que for, que lhes mantenha o poder sobre seus homens.

Não há juventude, pele fresca, cheiro de fruta ou o que seja que possa enfrentar o feitiço de uma mulher madura.


sábado, 9 de agosto de 2014

Elas não sabem (dia dos pais)

Elas não sabem (sobre o dia dos pais)

Há dia para tudo nos tempos que vivemos. Dia da costureira, dia do advogado, da secretária, da criança, das mães e dos pais. Nos 365 dias do ano, caberia até um dia do depressivo, do louco varrido, do assaltado, da ninfomaníaca, do taradão, do cidadão. Cada dia é dia de alguém. 

Amanhã é dia dos pais. Nunca ouvi falar de dia dos filhos; da criança sim, mas do filho não. Engraçado é que não dá para falar de pai sem falar de filho. O contrário até pode. Mas no dia dos pais, data bastante deturpada comercialmente, lembro do papel de pai e de filho que tenho a sorte de vivenciar hoje, das referências que tenho e que vivi, dos pesos e delícias desses papeis que - um dia chegará -, culminarão com o de avô. Um dia eu falo do meu pai, figura forte, complexa, presente em minha vida. Hoje não. Não é [o meu] momento de falar nele. Hoje é dia de falar dessa necessidade atávica de se perpetuar no mundo, de plantar semente, de contribuir para a sobrevivência da espécie e de reparar no quanto nos afastamos da medida do simples, do direto e do evidente. Com dificuldade de sair do clichê, da frase feita, do pensamento redundante. E reparar na figura paterna como uma bússola interna, que emerge após matarmos o pai no final da adolescência e ressuscitá-lo mais tarde na vida adulta, quando o homem se reconcilia consigo através do privilégio de vir a ser, ele também, pai.

As mulheres não sabem disso. A paternidade para elas é outra coisa. Só uma mulher poderá dizer com pertinência o significado do pai para elas; que ela o faça. Não digo que não é importante o pai na vida das moças, muito ao contrário, às vezes chega a ser doentiamente importante. O que digo é que a maternidade é tão mais forte e mais impressionante para a humanidade, que nós homens aprendemos a nos conformar com esse papel coadjuvante. 

Para compensar, nesses tempos de platitudes simplistas como a afirmação fictícia de uma ridícula e patética igualdade entre homens e mulheres, seres não apenas naturalmente desiguais mas, para além disso, muito diferentes, pensar na paternidade nos ajuda por pingos em "is". Pensar que servimos para plantar uma semente...

sábado, 2 de agosto de 2014

Semi Deus

Semi Deus

Você já se sentiu um semi Deus? Já foi acusado de semi Deus? Já pensou no que consistiria um semi Deus? Semi Deus seria um daqueles estados de espírito da pessoa que se sente acima do bem e do mal? Que se julga onisciente, onipotente, que só tem a si como referência, só pensa em si e entende que nunca erra, só acerta? Será aquele que não tem culpa nem arrependimento do que fez e do que faz? Será aquele que não se dá nem presta conta de seus atos, não imagina as conseqüências que podem gerar para os demais?

Ora, semi Deus não será aquele julga os demais? Não será quem acha que tem legitimidade de apontar o dedo aos erros dos outros e sentenciar-lhes a chama do inferno? Semi Deus não é aquele que não tem pecado a manchar-lhe a reputação, que não tem falha de espírito, não tem rachadura na alma? Por isso a autoridade para acusar e julgar?

Afinal, o que será um semi Deus? Porque será ele "semi" Deus e não Deus inteiro? O que lhe falta? Semi Deus, afinal, é Deus que falha? 

Ora, se falha não é Deus; nem inteiro nem metade. Se falha é humano. É só humano. E se é humano, tem parte com Deus. Seja ele (Deus) quem ou o que for. Se for humano tem pecado, aparente ou escondido.



sábado, 19 de julho de 2014

Os donos da verdade, arautos da virtude e a maldita Geni

Os donos da verdade, arautos da virtude e a maldita Geni

Há algo mais enjoativo que conversa de dono da verdade? E o que dizer da ladainha dos arautos da virtude? E quando se juntam na mesma virtuosa e puríssima pessoa? É incrível com que facilidade se julga o caráter alheio, se critica o próximo e se dirige um olhar severo de censura e repreensão ao erro daquele que está ao lado, ao escorregão do que está à sua frente, ao tropeço daquele ali atrás. 

Não é por nada, mas esses julgamentos definitivos do caráter alheio são uma verdadeira chatice, quando não um engodo. Vindos de jovens ingênuos, embalados pela quadratura da ideologia utópica - fase da vida por que todos já passamos -, ainda são compreensíveis, por vezes até divertidos. O duro é quando vêm de gente madura, velha de guerra, que tem a certeza moralista dos obtusos, dos que amadureceram com amargor no coração, ressentimentos na alma e contas a acertar com a vida que não lhes sorriu muito. Gente apegada às mágoas, colecionadas com fervor, guardadas no fundo daquela gaveta que cheira a naftalina, no centro de um coração enregelado.

Digo sem generalizar, mas reparo que os mais rígidos pertencem a uma horda de desmemoriados, uma turma de ex-pecadores, "ex" alguma coisa. Ex-biscates, ex-putas, ex-alcoólatras, ex-fumantes, ex-viciados, ex-boêmios. Os que passaram por alguma forma de - perdoe-se o trocadilho - (ex)comunhão social em algum momento da vida. Como dito, não todos, nem a maioria. Mas alguns destes, ao vencerem a própria fraqueza, o vicio atroz, ao voltarem a comungar socialmente, ao invés de humanizarem-se tornam-se ditadores; não só de si mas da virtude alheia, da regra do bom comportamento, não raro da verdade absoluta - ela mesma, aquela que a humanidade procura desde sempre. Falo daquele que diz "comigo nunca, comigo jamais", que aponta o dedo ao outro e julga-lhe os erros, os deslizes, os defeitos. Este ser, encostadinho na perfeição, não tem pensamentos impuros, não faz parte da ralé pecadora. Este não erra. Este nunca desvia-se do caminho da verdade, da pureza e da retidão. Este arauto passa por uma espécie de amnésia dos seus deslizes pretéritos, perde a humanidade e toma-se por alguma divindade no julgamento definitivo do restante dos mortais. Um projeto de Hitler, candidato a Bispo enganador de alguma seita. Esquece o pequeno ditador que todos erramos, todos deslizamos, todos vivenciamos o nosso "dark side of the moon". Está no nosso DNA. A imperfeição é "cromossômica". Dentre nossos muitos deslizes, está o de julgar apressadamente uns aos outros, o de falar mal - deliciosamente, aliás - uns dos outros, o de acusar (por vezes levianamente), uns e outros. 
Falamos e fazemos bobagem. Isso é humano. E a dimensão humana disso é justamente saber que no fundo nada é definitivo, que não podemos levar-nos a sério, que nossos julgamentos são falhos, que nossa memória é falha e seletiva, que as coisas não podem nem devem ser levadas a ferro e a fogo. Por isso há tribunais, que revisam sentenças. Por isso há pais, que perdoam os filhos. Há amigos, que relevam sandices. Há o tempo, que cicatriza as feridas e traz  novas perspectivas. O pressuposto é a imperfeição: as pessoas erram, acertam, arrependem-se, aprendem. Ou não, e erram novamente.

O ditadorzinho de plantão não percebe que a vida é curta, que não somos os donos nem da verdade, nem da virtude, nem da sapiência, nem da onisciência. Quanto mais certeza e peremptoriedade vejo em acusações, mais desconfio do caráter de quem julga. E mais pequeno e limitado me parecem o seu espírito e sua alma.

Triste é esse pequeno Hitler de alma tacanha, que tem certeza de tudo, que é dono da verdade, da moral e da virtude. Este não perdoa, não releva, não supera, não vira o disco; este joga pedra e bosta na Geni. Afinal, ela dá para quem quiser, ela dá para qualquer um.

Maldita Geni.